De certo deserto

Imagine um deserto sem mato e sem camelo. Nem mato nem coelho. Pior que mato sem cachorro. Ventos sem dó, finíssimos grãos de areia à cara já assada. Aqui cara jaz. Nem homem que é homem cai e sara. Qualquer saara mata um cara sem mato sem cão. Saara não, mas secura sim. Sol de mil graus, céu anilíssimo, dunas, vento, paisagem monótona, tarada sede. Se de sede morrer virará comida de cobra, lagarto, raposa, escorpião. No lugar do ex-corpo do peão, areia, areia e mais areia. É preciso seguir em frente, se é que se sabe o que é frente e o que é trás. Choóf, choóf, o barulho da bota no banco de areia. Cóf, cóf, cóf, de pó de rocha sedimentar dissolvida. Pé pesado, arfagem, miragem, coragem. Engolida seca, contorção do músculo do pescoço. Boca aberta, alerta à procura de umidade no ar. A vida é já relativa. Areia movediça por redemoinhos em montes nômades à espreita. Mais um passo, choóf, o cara tira uma paçoquinha do bolso. Abre com cuidado para não perdê-la à brisa. A ela misturam-se granizos trazidos pelas forças eólicas que a deixam crocante. Leva à boca seca onde paçoca vira maçaroca. Argamassa semi-sólida de amilase salivar grudada no céu palatino. O sal seca o que faltava...

 

A     s     f     i     x     i     a.

 

Se ainda não foi, tome um copo de água que isso é só um texto que dá sede. É já um homelo (e fechado na sílaba tônica me) – mistura de homem com camelo. Uma agulha no palheiro, um grão no mar arenoso, único no universo. Não é texto de frente e verso, que a ossada não tarda. Há que insistir na cega jornada sem ar, fogo ou terra, que a água já não havia.

 

Nota: em Delfim Moreira, Minas Gerais, nas duas vezes de escalaminhada do Pico dos Marins, no banheiro do bar que ia à noite, a torneira da pia jorrava sem parar. Na primeira vez fechei a torneira pensando: algum bebum esqueceu aberta. Na segunda vez disse ao dono do bar que alguém nunca fechava a torneira. Ele respondeu: - Sou eu que deixo ela aberta. É pra purificar o ar. Retruquei: - assim o senhor está adiantando o dia de acabar a água no mundo! E ele: - Magina, sô, a água aqui de Delfim num vai acabá nunquinha! E assim deu fim na prosa. Aquilo me deixou sequinho da silva. – Me dá mais uma boa de Salinas.

Escritas escrotas II - Totô teimoso

Não sou gagago. Nem totô escrecrevendo assim popor ter es, es, esse proproblema. O problema é a pressa. Pressa é fogo! Reunião daqui a pouco e, se atrasar, é bronca na certa. O grosso do “serviço” já foi feito, mas tem uma sobra renitente, indecisa que, apesar de ser quase certo que é pequena, parece ampliar suas dimensões pela teimosia. Tal qual um cisco no olho que parece ganhar dimensões mastodônticas, o resto do material fecal cutuca a mente persistentemente. Mini bate-estaca intermitente reprimida nas várias horas agás. Não dá mais pra aguardar. Tenho que ir e levar isso comigo. Os chefes esperam. Uma sacudidela na calça, mais pela cisma do que pelo efeito toquístico real. A ponta do toco quase lambendo a roupa de baixo, o que daria um toque glacê-frenagem contrastando com a alvura geral. Mas qual! O compromisso em primeiro lugar. Mesmo com o risco de uma riscada indesejada pelo toque, corro o risco. Riscá-lo da memória é o melhor a fazer. Embrenhado nas discussões da reunião, paulatinamente o toco foi ficando, ficando, até que sumiu por uns minutos, dada a urgência da concentração nos assuntos da empresa. Priorizar necessidades individuais é amadorismo. Profissional que sou, quase me esqueci da excreta (secreta?) reminiscente. Mas as reminiscências são fogo! E o toco ressuscitou. E voltou agulhando o ventre inferior bem no meio de uma explanação do gerente que, não entendendo minha expressão, perguntou se eu discordava de alguma coisa. Disse que não, não discordava e quando ele disse “então ótimo, vamos liberar o que está nos emperrando”, senti um incômodo adicional, a bem dizer descomunal. Já não tinha certeza se sairia dali ileso. Mantive a frieza dentro do possível. E dentro, o impossível toco tocava lá sua sinfonia, infernizando uma mente já abalada por gotas escorregando pela costeleta. Fim da reunião e um tapa sonoro na mesa dada pelo chefe quase precipitou um final trágico. Todos levantaram, menos eu. Fiquei ali, estático, com um sorriso fixo estampado e percebi que todos, em pé e em silêncio, olhavam em minha direção, mas eu olhava fixamente na parede em frente. Dois saíram, mas o chefe não, e sentou de novo mais próximo de mim e me disse: - Sei o quanto será difícil essa tarefa pra você, mas tenho certeza que tem capacidade de se livrar do problema. Se precisar de ajuda, conte comigo. Agora vamos? Claro que não precisava de ajuda. Aproveitando a rápida virada de costas do chefe depois do “vamos?”, levantei-me fazendo uma barreira com a palma da mão esquerda nos diques dos países baixos e, meio saltitando, unindo ao máximo as duas porções glúteas, caminhei por infindáveis 30 metros àquela radiante porta verde. No limite do absurdo, escuto um plóc,  e a vida voltou a sorrir pra mim.

Animeia

Ontem foi dia de massagear a alma. Não só esse lugar do corpo. Sim, grafei esse lugar. Porque assim como eu fiz, procure “alma” no dicionário, já que temos vocabulário ordinário. Ele vai abrir sua alma. Disse que massageei a alma e, porque não, o ego, a aura! Os toques dos dedos deslizando as duas almas, coisa do outro mundo! Relaxante, reconfortante. Entreguei-me de corpo e alma àquele deleite que anima e silencia. Foi a Méia que massageou minha alma, a parte curva da sola do pé. Descansou minha alma, lavou minha alma, agora a outra. E antes de entregá-la ao diabo, rendo-a a Deus.

Muitos dirão que é profanação do sagrado. Não! Respeito tudo em que Jesus cria, até o seu fim sangrado. Acho mesmo que morreu crente que nos salvaria. A questão é que ninguém ainda se salvou, que eu saiba. Os mesmos muitos dirão que é uma questão de fé e creio mesmo que é. Só que não a tenho. Pelo menos não do jeito pregado pela santa madre igreja. O livro dos livros é o grande best seller da história. Bastariam estes epítetos. Mas tantas contradições não fazem das Sagradas Escrituras mais precisas do que as Escritas Discretas, minha Virgem Santa! É muito tempo, antes e depois de Cristo. São muitas versões, traduções, mais as interpretações da Casa de Deus, por intermédio do Espírito Santo. Quantas interrogações estão por trás da Verdade, da Palavra! Hay que tener fe. Tudo pois que está escrito deve ser “crido como divinamente revelado”. Ou seja, creia e creia, tenha fé e tenha fé. Pobre São Tomé!

NORDESTÊS

 

O nordestês, língua falada na região banhada de norte a leste pelo Oceano Atlântico, que divisa ao sul o Estado de Minas Gerais e a ocidente o Estado do Tocantins, apresenta peculiaridades na fala de que pouco se fala. Assim sendo, um pouco dessa rica matéria será usada como ferramenta para identificar outro traço cultural típico da árida região, na qual sobrevivem espécies sobre-humanas, sub-hídricas, quase tão secas quanto o solo. Uma análise dos componentes das solas dos bípedes humanóides revelaria um arranjo físico-químico intermediário entre pele e terra, ambos enraizados na paisagem, ora salmonada, ora pardacenta. Oxchchchch é, de longe, a interjeição mais pronunciada nas terras das caatingueiras. A longa série de consoantes chiantes repetidas após um único o, é uma extensão de “oxe”, sua forma mais simples e derivação regressiva de “oxente”, por economia, como diria Saussure, ou por folgança, como diria Virgulino. Dependendo do grau de exclamação que o tema mereça, pode variar entre um simples “oxi” a um complexo oxchchchch, cheio de ceagás como já mencionado. Há quem diga que é termo adaptado de bullshit, que na língua inglesa significa algo como lorota, besteira, papo-furado, que teriam sido pronunciadas por ingleses não tão bem-humorados durante a construção de uma ferrovia no Ceará e que foram mal imitadas pelos atônitos ouvintes locais. Na opinião de outros seria redução gradativa de “oh, minha gente” para “oh, gente” que, pela troca peculiar daqueles falantes do g pelo x, chegou-se ao oxente. Outra palavrinha com som também chiante e com alto grau de ocorrência no nordestês é “vixe”. Essa gente mais uma vez surpreende, já que é capaz de pronunciar tal vocábulo com farinha na boca. Não é pra qualquer um. De modo similar, vixe é interjeição, cujo prolongamento chiante também depende do grau de exclamação requerido. Por exemplo, um jegue escorregando pela ribanceira pode gerar um vissshhhhhhhhhhh, enquanto que um lenço que simplesmente escapa da mão pode redundar em apenas um vish, ou vigi, ou ainda vixi, assim simplório. Pode ou não vir acompanhado de Maria, ou ainda, quando o sujeito é fervoroso devoto de alguma específica, pode dizer coisas do tipo “vixe Maria do santo sepulcro da conceição dos ouros” que dá noção de algo mais exacerbado. Aliás, vixe Maria é corruptela da expressão “Virgem Maria!” Não se confunde com “vici” que é um termo com entonação vocativo interrogativa e que alude a uma confirmação de frase, geralmente no final da oração, assim como “certo?”, “está bem?”, “está vendo?” ou “num sabe?” Ex.: Hoje vou fazer carne-seca na moranga, vici? Saindo do ramo da chiadeira, mas ainda seguindo o caminho das interjeições, há o “eita”, praticamente sinônimo de oxe e vixe, que pode anteceder “nós” pronunciado como “nóis” ou o ainda mais complexo, “eita nóis lá em casa!”; eita nóis lá em Santana do Livramento”, e assim por diante. Às vezes é reduzido, na forma “eta” apenas ou composto – eita-ferro! ou eita-pau!. Um nordestino atrasado poderia dizer: osshh, vishh, ou ainda o eita, já são dez horas! Hora de mudar o tom da prosa. A comida desses moços (sua longevidade está abaixo da média do Brasil) é, no entanto, um folguedo repleto de cores vivas, texturas magníficas e alegria surpreendente frente a sobreviventes. A já mencionada farinha é sorvida pura ou dá liga a todo tipo de angu. Se alguém servir a mesa sem a famigerada farinha a coisa vira um angu de caroço! Um dicionário de culinária nordestina provavelmente iniciaria pelo baiano abará, que é feito com a mesma massa de feijão fradinho do acarajé, só que o primeiro é cozido e este é frito. Entre os dois haveria o acaçá, que é uma massa de milho cozido servida aos orixás nos rituais candomblé. Reparem quantas oxítonas no léxico afro! Lá no fim, num zás, o vatapá, outra massa de consistência cremosa feita de farinha de rosca, fubá, gengibre, pimenta-malagueta, amendoim, castanha de caju, leite de coco, azeite de dendê, azeite e tomate.  Vishhh santa, que a fome era tanta! Eita coisa boa o bolo de macaxeira, feito da simples mistura de mandioca com coco, num sabe? Bobó de camarão, camarão na moranga. Tudo colorido naturalmente. Se faltar o prato ou a farinha, que venha a rapadura que é mais doce que o doce de batata-doce, mas não é mole, não! Pura cana em tabletes, lingotes – Se falta dentes, que não falte língua: basta chupá-la. Dos engenhos sai o puxa-puxa que é – contradição – a rapadura mole, com consistência intermediária entre os estados físicos líquido e sólido, um elástico ou borracha dulcíssima. Se é bom? Oxi, se é, vish, menino! Voltando a chiar, tem o xinxim, feito de carne temperada com alho e cebola ralados e refogada em azeite de dendê com camarão seco, amendoim e castanha de caju. A carne do calango tem textura dura e, ao mesmo tempo, elástica, vixe santa! Praticamente um chiclete. Tem o mugunzá que é feito de milho branco para canjica, canela em pau e em pó, leite de coco e de vaca e servido em ritual para orixás. Para quem não é orixá, mas é filho de Deus, pode acrescentar um bocadinho de leite condensado. Diliça! Imaginem os cheiros de tudo isso! Picantes, fortes e atraentes, podem precipitar, amiúde, convulsões intraintestinais aos menos habituados. A mim que não, que quase tenho moela e um apetite estimulante, vici? Como canta Gil, “cores vivas, eu penso em nós, pobres mortais...” Deus seja louvado e abençoe eternamente essas terras do além, de além-queijo, de tanta pobreza e também de tanta riqueza, amém!

 

Trema

 

O trema caiu e seus pontos ficaram estatelados ao lado do u, atônitos e trêmulos. Pontos passageiros, pacatos, esquecidos, perdidos em devaneio e sem rumo. Subir de volta já não podem. O formato curvertical da letra impede. Dormiam um sono secular, até que um pequeno grupo decidiu que aqueles caras deveriam ser expulsos, cada qual da sua ponta de u.  Empurraram a última vogal que se moveu feito balanço pra lá e pra cá, feito terremoto de nove pontos. Cada ponto tentava desesperadamente se apegar à parte da letra que lhe cabia, seu lar de tanto tempo, tudo em vão. O dedo do presidente daquele pequeno grupo deu mais um impiedoso impulso até o u ficar totalmente de lado, deixando os dois pontos à mercê da lei da gravidade. Pior para o ponto que estava mais alto, pois a queda foi mais grave. Quando deixaram seu u não dava mais para voltar e a letra foi se estabilizando, parando de balançar, até que parou, já sem seus velhos pontos. - E agora?, disse o ponto de baixo. Ainda muito tonto, o outro ponto foi voltando a si, aos poucos. – Nnnão sei, isso nunca aconteceu antes, precisamos de um outro lugar. O primeiro ponto disse que conhecia uma língua que alojava dois pontos em várias letras, não apenas no u; talvez fosse mais receptiva, no que o segundo disse: - e se eles forem nazistas? Melhor não. E assim ficaram por um longo tempo vagando sem saber do destino que os aguardava. Certo dia encontraram uma frase comprida e viram seus pedidos para ficar serem recusados, letra após letra, até que a frase acabou. Foi aí que ocorreu o inesperado: a frase ainda estava em construção e acabaria com a palavra seguinte. O u ignorou totalmente os lamentos dos pontos errantes – disse que estava proibido de receber pontos, sob pena de se tornar uma letra errada. Foi quando a vizinha letra i falou para se apressarem, antes de aparecer umas tais aspas, pois logo após as letras n, t e e seriam necessários exatamente dois pontos, só que agora tinha que ser um acima do outro. Os pontos se apressaram e, usando a mesma linha invisível que os sustentavam quando pertenciam ao saudoso u, se instalaram logo após o último e, e o que se sucedeu foi que apareceu na linha debaixo as aspas com o texto:

 

 “Não se usa mais o trema (¨), sinal

colocado sobre a letra u para indicar

que ela deve ser pronunciada nos grupos

gue, gui, que, qui”.

 

Assim, os dois pontos, felizes da vida, aguentaram (sem trema) firmes por muito tempo na nova função, o que possibilitou descobrirem que nada é para sempre...

 

 

LOMBRIGAGEM ESPANHOLA

Espanhol come!! Não é de gula, é ritual. Comer faz parte da cultura. A Guerra Civil deve ter alguma coisa a ver com isso. Medo de não ter o que comer como naqueles tempos. Por isso espanhol estoca tudo quanto é coisa de comer.  Espanhol não faz boquinha, faz bocão. Come com prazer pão, batata, azeite. Ah como são panturras esses espanhóis! O pão acompanha todo tipo de cardápio, desde o mais básico. Creme de chocolate quente com pão, comida com pão, sopa com pão, até frutas com pão. Uma tia minha, a tieta Elvira, comia pão com figo! (Minha esposa, que é brasileira, gosta de pão com banana). Aliás, essa minha tia tinha cada costume! Era aficcionada por limpeza. Passava o dia limpando. Apesar de comer bem, não comia na casa de ninguém, nem mesmo dos parentes. Levava “marmita” com comida que ela mesma preparava. Lavava verdura com detergente e, depois de descascar, lavava a banana. Difícil de acreditar, mas é verdade. Era pão-dura. No Natal nos dava presentes do tipo escova de dentes, pente, ou coisas afins. Se ia no mercado ou feira, ai de quem não devolvesse um ou dois centavos! Não apenas exigia o troco parco, como também dava um sermão daqueles – “por isso que esse país não vai pra frente” e quetais. Essa era outra mania dela. Falar mal do Brasil. Tudo daqui é ruim. Um dia perguntei porque não voltava pra Espanha, minha mãe me beliscou e disse pra eu não ser espanhol. Fofocava sobre a sujeira das casas e pessoas. Duro era andar com ela cheirando a naftalina. Sim, por que tinha essas bolinhas espalhadas por todos os armários e guarda-roupas da casa. Até seu hálito exalava naftalina. Bom, mas deixando a tia de lado, que Deus a tenha (será que o céu é limpo?), voltemos à glutice quixotesca. A batata cozida é fundamental. Sopa de batata batida, purê de batata, batata com isso, batata com aquilo. E devidamente regadinha com o genuíno azeite espanhol. Minha mãe só usa Carbonell. Maionese, muita maionese! Com batata, ovos e cenoura e vagem bem picadinhas, cebolas e só um dente de alho pra dar gosto. E dá-lhe azeite! Sobremesas não podem ser poucas. La crema, um tipo de creme de ovos com baunilha e canela em pau é fantástica. Come-se em cumbucas com colher. O pudim de leite condensado é um delírio! Com aqueles furinhos e calda de caramelo...Manjar de côco com ameixas em caldas, valha-me Nossa Senhora! Lombrigagem braba!

Escritas Escrotas I - Gosma de Sagu

No início dos tempos veio o Cosmos e tomou o lugar do Caos no vazio do universo. O espaço era invisível. A luz se fez e vazou a taça de vinho após percorrer anos e anos-luz. Brotou da estrela e aqueceu o chão da Terra. Do longínquo big-bang ao bang-bang do mundo o tempo espera o tempo da chegada do Messias para parar. E aí tudo será infinito e insatisfeito. Não mais se pagará pela vida eterna, mas pela morte inatingível e o homem terá saudades dela. A matéria e o humus se acabarão. Restará apenas o espírito sem vinho. A Terra se vingará. O fogo profano tomará o lugar da luz minguante e queimará o último galho retorcido. O Caos retomará o lugar do Cosmos e teu filho viverá na eterna escuridão fria bebendo gosma de sagu.

Escritas Secretas I - Bandeira

 

Estou verde de raiva

Meus dentes amarelos estão à mostra (aos políticos sacanas)

 Não tenho olhos              

Estou  branco de fome

 As estrelas se escondem no céu

Ame-o ou Deixe-o (eu não (?))

 

Escri, escro, secretas

As escritas continuarão discretas. Porém, às vezes também escrotas. Ainda discretas, posto que há dois ou três leitores mais ou menos assíduos. Combinemos pois, caro leitor, que escrotas serão subclasses das mesmas escritas discretas. Assim, a partir de agora, quando um texto se identificar mais com essa ou aquela subclasse virá precedida de indicação específica acrescida de um número. Tais explicações, eu sei, mais aborrecem que esclarecem, mas minha intenção é fazer com que não haja enganos sobre minhas intenções. De modo que quando houver uma indicação do tipo “Escritas Escrotas VI”, qualquer crítico, inclusive você leitor, poderá dizer livremente: - que texto escroto! Por fim, ainda haverá as escritas secretas, as quais cumprirão o mesmo ritual, destacando-se apenas que, a despeito dessas, rogo a cada elemento dessa pequena confraria seja o mais discreto possível. No entanto, nada impede que uma escrita, secreta ou não, seja tão escrota quanto. São, enfim, todas escritas, no que se recomenda muita cautela na hora de rotular o autor similarmente aos seus próprios rótulos. Parafraseando Wilde, não há textos morais ou amorais, apenas bem ou mal escritos. Eis Tudo.

Olhos Vidrados

Grudei meus olhos nos olhos dela. Os meus disseram: te quero; os dela: acho que sim. Ambos se foram. Os meus continuam querendo, os dela continuam achando.

As atônitas alfaces

 

Bem dizia alguém que conheci numa sala de terapia: como é duro ser louco com tanta gente normal por aí! Nem placas com terabytes de memória fazem-nos lembrar que falta pouco, muito pouco pra fazer aquilo que ainda não fizemos. Por exemplo, escrever um livro que venho há muito preparando, o Adultoterapia, que virá em seguida ao Infantoterapia, este ainda em curso. Venho tentando aprimorar meus conhecimentos e técnicas da arte de escrever, coisa que parece difícil, mas, na verdade, é muito difícil, porque você quer ser preciso, usar as palavras certas e nem sempre acha. Muitas vezes ela acha você, assim sem querer. Tenho que ser acurado, pois veja o Saramago, que os deuses o tenham e o valham, que não era homem de um único Deus, que apareceu ao mundo literário já com avançadas primaveras, quando arrebentou como se fosse um rebento de ovo de T-Rex, de idade mesosóica, mas impondo respeito. Recém saído dessa pra melhor, é a hora dos covardes de plantão colocarem-no no Olimpo ou, como alguns jornalistas não mais briosos, descerem-lhe a lenha por ter sido comunista e ateu, em veículos outrora esquerdistas e que ora falam mal deles, só quando o encarnado vira as costas. Coisas de revistinhas futriqueiras. É normal essa coisa da “sede de nomeada” em vida, nas palavras de Machado, mas observa-se que justamente a partir da despedida desse mundo é que o sujeito se imortaliza. Pode escrever que isso vai rolar com o Chico Buarque, por exemplo, que é orgulho nacional, mas que atingirá os píncaros mesmo, emprestando seu nome a centenas de ruas, casas culturais, teatros, etc., só mesmo quando desencarnar (que demore mais cem anos!). Mas isso de escrever não me levará, simples mortal, à gloria. Mas esse caminho trilhado, por si só, já me leva ao infinito prazer pela brincadeira de comunicar. De me transportar a outros mundos escondidos em mim mesmo, à procura de paz. Outra coisa é viajar, conhecer lugares mágicos e também os reais, porque conhecer lugar é tudo de bom. Fazer uma trilha em terrenos inóspitos, mal explorados, tropeçar numa pedra ortográfica, se molhar numa cachoeira de letras, se cansar numa subida infinita de metáforas, e ir descendo, descendo aos mais recônditos verbos verdes e ir diminuindo, diminuindo de tamanho até dar de cara com uma imensa lesma saindo de um caracol, fugir dela (afinal, é uma lesma!), subir num pé de couve e olhar aquela imensidão de grama se mexendo por causa dos movimentos inquietos dos insetos. E saber que mesmo com o vento, os pulgões não desistem de chupar os pés das atônitas alfaces.

 

 

Mudei de idéia, o Infantoterapia terá continuidade mais adiante. Passo agora a reescrever coisas tão ou mais triviais.

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Estou sofrendo de sãopaulite. A doença é antiga, mas só agora diagnosticada. Especialistas da área de saúde acham que é crônico. Falar mau do lugar onde se vive não é lá muito bom, mas a megalocatatônica cidade faz isso com seus distintos munícipes. Melhor seria sofrer de ilhabelite, maceiopraiose, chapadisia, esta se dividindo em diamantemia e guimarãesenite, que são doenças de gente doida. Algumas quintas dou-me ao luxo de me atrasar, causa dos fluxos etanóicos do dia anterior de jogos importantes. Ontem foi importante, mas exdruxulamente ridículo, o que fez com que meus órgãos envolvidos com fluxos clorídricos, enzimas e pepsinas ficassem mais vulneráveis. Saudades de outras cidades. Saudades das férias que acabaram semana passada. Vontade de morrer sentado nesse ônibus. Credo! De jeito nenhum. Viverei pra ir a outros sítios, seja campo ou praia, quente ou frio, aqui ou acolá. Vivemos pra quê, afinal? Cada qual procura saber seu motivo, mas nem sempre se sabe. À noite, tudo se sabe. De dia, nem tanto. Esse tonto papo é pra mostrar que a gente (inclusive você) não para pra pensar que tolice é essa de morar em um lugar matutando o tempo todo em ir a outro. Agora pensando melhor – os fluidos estão se esvaindo – nem deve ser o lugar, mas a situação em si (menor). É um sem-fim de ganhar e pagar, ganhar e pagar. O balanço pode até se equilibrar, mas o problema maior são os créditos e os débitos constantes, fazendo com que esse balanço não pare de balançar. A tábua deve estar firme, porque a corda no pescoço pode ser fatal. E um galho frágil pode te salvar e abrir seus olhos para essa asneira e te mandar pra outro lugar mais fresco, mais humano, com menos gente, mais água e mato, menos esgoto e rato, mais bermuda e menos esporte fino, mais risos e menos carrancas, mais charretes e menos catalisadores, mais cavalos e menos alcoóis e gasolinas e gases e diesel.  Agora tusso pra ouvir o barulho e tento onomatopear a tosse de um jeito que não o tradicional cóf, cóf, que nunca concordei, mas tenho que admitir e me resignar: faltou recursos, seja criativo, seja da própria língua, não da minha, da portuguesa.  Hão de concordar comigo que um atchim é mais compatível e representa com mais precisão o som do espirro. A náusea já passou, mas a vontade de estar em outro local, não. Por isso escrevi. Auto-transportei-me pra não-sei-onde e já me sinto curado.

 

Capítulo XXIII – Parler-vous Français?

Passando o dedo devagar na sobrancelha, costumava me preparar pra dormir. Isso me dava uma morbidez gostosa que proporcionava uma sensação de desapego paulatino deste mundo e me levava a outros, nublados, que iam se dissipando no nevoeiro do fundo azul-claro da tela do sagrado coração de Jesus. Sumiam os dedos em riste e lá estava a visão totalmente embaçada dos sonhos de piratas lidando com torrentes, rompendo espumantes cristas salgadas. Pálidos e perplexos marujos agarrados às cordas do convés tremulando fita vermelha na testa, ávidos de aventura antes de largar a casca. Cabeça, olhos, boca e pescoço de dragão soberano ante as revoltas águas. Suor no leito. Era tão real! O coração exposto a me encarar. Hora de acordar.

 

Educação física nas Palmas do Tremembé. Dia de jogo. Mal amanhecido o dia e a névoa fresca da manhã me acompanhava. Velas vermelhas de macumba nas esquinas em sinal de rituais noturnos do tranca rua. Não pega com a mão isso, não chuta com o pé aquilo. Longa caminhada até o campo quase vermelho de falta de grama. Traves do gol descomunais para um goleiro como eu, de salão. Joelheiras postas, luvas improvisadas de guidão de bicicleta, camiseta lisa de mangas compridas, batida com calcanhar no poste.  Ar sério. Silva o juiz e rola a bola. Correria longe, rebote da defesa adversária, bloco se aproximando, batidas de pés ecoam no solo duro, rachado. Tensão. Chute de meia distância, dois passos à esquerda e impulso intenso. Mãos trocadas. Desvio dos dedos. Ainda deu pra ver, no ar o resvalo no ângulo do travessão... Felizmente pra fora! Frisson geral. Nesse dia ganhei o mundo e um ponto a mais na média. Volta pra casa de peito estufadíssimo, promessa de vaga de titular. Bobagem, ninguém a quer, a não ser eu. Mas naquele momento ganhei a vaga de mim mesmo. Me superei. Todos da aula do Pierre vão saber.

 

Pierre era o professor de francês. Grande e alto, pele delicada e vermelha. Toda aula era a mesma coisa. Falava baixo e não se empunha como mestre. Repetia sempre as mesmas frases do tipo Où vas-tu? Je vais a l´école, porque ninguém prestava atenção e acho que ele achava que aprenderíamos por repetição. A bagunça era tamanha que rolavam gargalhadas e bolas de papel entre as carteiras, brigas de vizinhos e, inadvertidamente, quando frenéticos aviõezinhos já voavam pela classe, no meio da lição da mademoiselle, tuc, um dos ultraleves acertava a cara ou a cabeça do atônito francês de nascença, o que causava inevitáveis gargalhadas dos pestes de plantão. Isso - reflito agora depois de grande - devia ser humilhação extrema a um ex-morador da Gália transalpina, porque ele ia transformando sua enorme cara vermelha em roxa, à la Hulk de cor trocada, olhos dilatadíssimos e PÁ – uma batida descomunal de mão aberta na mesa de madeira que, ato contínuo, calava qualquer som a centenas de metros. Esclarece-se que sua mão era do tamanho de uma raquete de tênis e certa vez literalmente afundou uma mesa mais frágil. A este tenso cenário seguia-se um silêncio mortal e logo o monsieur professeur com olhos totalmente esbugalhados gritava os mais altos berros, ou berrava os mais altos gritos palavras em quase português do tipo: “pestits”, “ignorrants”, “mentecapts” junto com mais batidas comprometedoras à integridade dos jacarandás que, Deus seja louvado, é gênero de mais de 100 espécies e as imbuias, então ainda abundantes, que os homens não são de muitos louvores, das aroeiras, cedros e cerejeiras. Mais sofriam os freijós, guarnecedores dos cantos escuros e internos que, sem esperar tamanho impacto, envergavam de medo e quase embranqueciam. A aula acabava mais cedo porque, descontrolado ao extremo, a ponto de engolir vivo algum de seus enfants pupilles, era detido por outros mestres ou pela diretora que não sabia mais o que fazer. Os alunos, sabidos que eram, fingiam não ser nada com eles.

 

Nessas alturas já exalava o aroma do pão com carne moída, molho quente e queijo derretido que vinha lá da lanchonete esperando pelas pequenas e ávidas bocas. Enquanto o mundo conhecia os Supertramps, ricos meninos que tinham algum cruzeiro amassado e apertado na palma da mão corriam na direção do quiosque improvisado pra chegar primeiro e garantir seu lanche. Outros menos encruzeirados desembestavam à cantina de olho na sopa, meio rala, é verdade, mas saborosa. Em dia de mão vazia, preferia o café com leite, ainda morno da lancheira e um amassado pão com ovo frito, que às vezes trocava por dois pirulitos G-crack (nem sei como se escreve) que me lembro bem, era um retângulo de caramelo com vários riscos paralelos e na embalagem vinham jogadores chutando bola. Aliás, tinha um pirulito de chocolate que era uma bola de capotão perfeita que ia se desfazendo a cada chupada. Tinha dia que passava o recreio trocando produtos mirins em busca de um escambo perfeito. Às vezes acabava com um punhado de ping-pong, uns de sabor hortelã e outros tutti-frutti, mas tinha vez que voltava pra sala eufórico com algum soldadinho de plástico e falava e gesticulava, pulando e chutando o ar de contentamento, dizendo pra todo mundo olha o que eu troquei com o Nelson!!

 

Linda Eastman estava se casando com o Paul Mc Cartney, juntando seus trapinhos e Samuel Beckett, com seu teatro do absurdo dos desesperados esperando por Godot, ganhava o Premio Nobel. Caetano brincava com os argonautas e receitava: atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu.

 

Capítulo XXII – Vasto Mundo

 

Inexplicável o atraso do prelo, não tem dado tempo nem de rezar, gasto no quarto um quarto de minha vida, ao contrário de muitos que gastam um terço porque rezam.

 

Vendo a torneira jorrando água na jarra, me deu vontade de mijar. Perdão pelo chulo termo que de intransitivo (quem mija, mija e pronto) migrou rápido para transitivo direto e estava por virar pronominal. Danou-se! Como sempre, nessas horas aparece algo pra atrasar o alívio. Era o Humberto Silva convidando pra jogar bilhar na casa dele. A vontade acelerou pela excitação do jogo. Apertei um bocado minha torneira. Peraí um pouco que vou no banheiro. Já ia o jato morno produzindo amareladas mini-bolhas n´água e minha cabeça olhou pro teto, com olhos fechados e boca aberta em êxtase.

 

Íamos sempre na casa dos Silva. Sei que não somos americanos pra falar assim. O nosso normal é falar que vamos na casa do fulano e pronto, ao passo que os ianques costumam dizer que vão na casa dos de tal. Os irmãos maiores, e eles eram grandes, sempre se apresentavam assim, Humberto Silva, Ariovaldo Silva, completo. O mais novo, porém não menos crescido de tamanho, chamava-se só Luisinho. Não que ele não tivesse sobrenome, mas se apresentava como a maioria, simplesmente Luisinho, e estamos apresentados. Não preciso dizer que os pais deles eram grandes. O pai, dono de um ferro-velho, vivia sujo de graxa. A mãe, do lar. 

 

A família gostava da gente porque não caçoávamos deles. Apesar de muito grandes, eram extremamente ingênuos e os meninos da rua costumavam bulir com os três. Isso até ensinarmos algumas coisinhas a eles. Descobriram que uma bordoada de vez em quando faz moleque chato passar mais longe. O Ariovaldo, a certa altura, tivemos que desensinar, ou melhor, explicar que não podia exagerar que não era caso de mandar ninguém pro Pronto Socorro de Santana. Ele batia e ria. Uma risada às vezes preocupada de quem sabe que aquilo não é legal, às vezes curtida, saboreada a cada tapa nos surpresos pivetes. Quando, no meio de uma pisa, passamos a pedir que eles parassem de bater, os outros meninos descobriram que a culpa era nossa. Nossa não, não sabíamos que eles iam gostar tanto e, de qualquer forma, passamos a ter um poder dobrado em número ou, melhor dizendo, redobrado em tamanho, o que nos deu uma tranquilidade que nem sequer imaginávamos. O fato é que os pirralhos da vizinhança ficaram, como se diriam nas gírias futuras, espertos! Não mexiam mais à toa nem com os Silva nem conosco, que era líquido e certo que ficariam roxinhos da silva. Aqueles irmãos passaram a lembrar os gauleses do Asterix e os meninos da rua em geral, os romanos. Vi muito deles, os mesmos que antes chutavam as bundas, beliscavam e estapeavam as gaulesas nucas e outras diabruras, agora correndo de pânico ao avistar um Silva.

 

A casa deles era grande e térrea. Enquanto jogávamos, e isso eles sabiam fazer bem, a mãe deles servia goiabada quente com pão e refrigerante. Coisa de doido, muito bom! Eram de Araraquara que, infeliz coincidência do destino, é um topônimo com muitos erres e caía como uma luva ao sotaque arrastado do interior. Pelo menos sou de Caconde. Pior pro João, que até hoje, mesmo brincando, fala que nasceu em Pinhar. Eles estudavam em outra escola – Rodrigues Arves, do lado esquerdo da Av. Ataliba Leoner, pra quem vai pra região centrar.

 

O Rodrigues Alves, acho, dispensa apresentações, né? Terceira maior fortuna do país da época, além de presidente fora ministro da Fazenda e tinha uma fazenda de 400 cômodos, onde as refeições eram servidas com talheres de vermeil, que pra mim que sou quase mineirin, isso é uma corzin assim vivin, o que não é de todo mentira já que, após consultar o dicionário, vi que se trata mesmo de uma cor rubicunda. Salve salve os Alves ainda vindouros! Salvem os prudentes de moral. Não se trata apenas de um número par. Veja que são 400! Nem 40, nem quatro, que muitos têm só isso de acomodações. Nem mesmo Ali Babá, o pai de todos, sonharia com 400 seguidores. Contra Xerxes, Leônidas que era Leônidas só tinha trezentos para defender as Termópilas, lugarzinho sinistro, palco de guerras sangrentas envolvendo macedônios, gálatas, helenos, romanos e sírios. Com o mesmo número de 300 soldados, Gedeão retomou a parte central da Palestina aos invasores midianitas. Não é à toa que Gedeão significa matador. Mas 400 cômodos! Se friso e refriso é porque a frieza dos números em geral impacta pouco. São só números insignificantes, ao contrário da quentura de tantos cômodos formados por sete comovidas letras que lhes dá significado ímpar. Um cômodo para cada ano da existência histórica do carnavalesco país de então. Esteja claro este último advérbio de tempo. Alves não morreu no vulcão, mas no Rio. Depois dele, o próximo Presidente da República paulista, desculpe o bairrismo, foi o ilustre conterrâneo cacondense Ranieri Mazzilli, por poucos dias, é verdade, mas foi, quando eu nem sequer tinha completado um ano. Alguém aí conhece alguma escola com o nome dele? Tem pelo menos uma em João Pessoa e outra em Jundiaí.

 

Essa história de nomes de ilustres nas escolas é normal, eu sei, mas alguém se lembra quando pequeno das suas biografias? Que eram divulgadas isso eram, mas ninguém captava. Podiam pôr outros nomes, sei lá, de personagens de estórias. Por exemplo, Escola Estadual do Primeiro Grau Jeca Tatu. Você falando pro seu colega: vai no Jeca hoje? Hoje não, que não tem tatu que agüente aquela professora Leocádia. As crianças falavam que iam pro Rodrigues, pro Albino, que era mais fácil de falar do que Albino César, que ninguém pensava no ilustre, o que vinha à mente era o espaço físico da escola e só. Mas o Albino César foi no colégio, nome do segundo grau ou ensino secundário daqueles tempos. Aguarde, que aqui pra nós ele ainda é futuro. Ave César! Se é que posso me atrever a renomear um ex-presidente ao estilo do blues, deixo o Rodrigues “400 cômodos” Alves.

 

Voltemos aos Silva. Eles passaram a colecionar as figurinhas do mesmo álbum que a gente. Assim podíamos trocá-las e era mais fácil preencher o álbum. Era um de animais, desde os pré-históricos até os mais modernos. Nem acreditei quando dois cromos duplos completaram um plesiossauro magnífico, na primeira página, com suas enormes patas submersas e o tronco e o pescoço descomunal fora d´água, com algas deslizando de suas mandíbulas gigantescas. Era o principal sauropterígio da época. Desde então decidi ser paleontólogo. Pena eles terem acabado.

 

Rivelino fazia propaganda de opala e Jackie Stwart venceria o campeonato de F1. Mais tarde, sua escuderia – Stwart - faria sua única pole-position conquistada por Rrrrrrrubens Barrichello. As cinzas das horas também flagraram seu criador, Manoel Bandeira. Como diria seu admirador Carlos Drummond, que declamava, declamava e reclamava, mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo...

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