Capítulo XI – Noite Braba II
De tanto porão, pomar, esconde-esconde, rampa, pega-pega, brigas, risos e choros, fomos cedo pra cama. No dia seguinte voltaríamos pra nossa Santo Antônio do Jardim. Que os anjos digam amém. Nesta noite dormiríamos os três no mesmo quarto. Dormiríamos é por que uma série de acontecimentos nos impediu. Primeiro acordei lá pelas duas da manhã com o João me cutucando: Beto, Beto, você ouviu esse barulho? Disse pra ele que eu estava dormindo, esfregando os olhos, e logo a seguir, ouvi sons que pareciam ser passos no interior da casa. Até aí, tudo bem, alguém deveria estar se dirigindo à cozinha para beber água ou ao banheiro, sei lá. Mas o fato intrigante era que não havia luzes acesas. Bom, pode ser que a pessoa, tipo o vô ou a vó, soubesse o caminho de cor e não precisasse de luz. Mas os passos eram compassados demais para alguém que se dirigisse a um objetivo definido. Às vezes o ruído interrompia-se para dar lugar a outros, como se a misteriosa pessoa estivesse vasculhando objetos. Barulho de papel se amassando, outras vezes sons metálicos. Criamos coragem e acendemos a luz do quarto pela “pêra” dependurada por um fio na cabeceira da grande cama. Por que uma coisa eu digo: se precisasse levantar pra acender a luz, acho que ninguém iria. O Zé fazia caras e bocas, às vezes com medo, às vezes meio divertido. Mas nós que já éramos mais velhos, ou menos novos, estávamos arrepiados da cabeça aos pés. Por falar em pés, os passos aumentavam de intensidade e o som surdo de botina no assoalho chegava até nossos ouvidos com mais intensidade. Lembrei daquela noite da raposa, mas dessa vez não era bicho. Era gente sim. Por incrível que possa parecer, me consolei pelo fato de, desta vez, estar com meus manos do lado, a esta altura, uns agarrados nos outros. A cada passo, um aperto a mais e mais cabelos arrepiados e sussurros muito contidos pra não alertar o dono dos movimentos do outro lado do quarto. Como no episódio da raposa, os estalidos daquele caminhar aumentavam de intensidade e pareciam crescer justamente
Capítulo X – Rampa, porão e mingau
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