Capítulo XIV – As Curvas da Estrada de Santos

 

Meu pai me salvou! Perguntou o que eu achava de ir a Santos com ele de caminhão. Ninguém vai imaginar o que eu senti. Alguma coisa pulou dentro do meu tórax. O pai disse que ia carregar café até o porto. Faríamos a pequena parte terrestre da longa viagem até o destino final, levando um bocadinho desses frutos que até hoje singram o Atlântico. Do Islã para o Brasil, via europeus, do Brasil para o mundo. Lembra do nosso Barão de Motta Paes? Passamos de produtores a transportadores! 30 anos antes, milhões de sacas do “vinho da Arábia” foram queimadas. Mesmo assim a produção voltou a crescer. Torraram-se e ferveram-se muitos outros silhões de sacas que foram despejadas em bilhões de bules de prata de reis, de porcelana imperial, de estanho de nobres, de vasilhas de pobres que vêm enchendo xilhões de xícaras da tal bebida cheirosa. - Cóf, cóf, fazia eu com o pó da lona que cobria a carga. O cordame subia e descia em zig-zag atado nos ganchos alternados de cada lado da carroceria. Não era fácil subir no estribo da cabine. Era meu pai que me subia até lá. No bancão de mola, minhas pernas de cabrito ficavam balançando e os dois braços ficavam firmes em diagonal para evitar um tombamento. Às vezes ficava de pé com as mãos e o queixo encostado no gelado painel de lata, atento às paisagens e solavancos. Ansioso pela serra que nunca chegava, perguntava por ela a cada cinco minutos. Da passagem por São Paulo tenho vagas lembranças, um vagalhão de paisagens desconexinzentas. Verdes anunciaram nova proximidade de estrada. E o mais importante, a serra. A cada “já tá chegando” a aflição crescia. Começou a serra, disse meu pai, o que deu um arrepio na minha espinha. Logo vamos ver o mar. O mar que eu não sabia, e que neste dia de minhas reminiscências, perdeu seu maior contemplador. Caí-me a perscrutar a menor chance de vê-lo pela primeira vez. Curvas incessantes, mato, montanha e céu. Mas nada dele. Luminescências emanadas de serrações sinuosas numa mistura de boiçucanga e boitatá em plena tarde. Cheiro de lona e chiado de freio. E aí ele veio. Num clarão, um azul. Um enorme céu lá embaixo no chão. Meus olhos, úmidos e vidrados, quedaram no distante deus de Dori. Algumas horas depois, já perto, tive medo. Nuvens e mar cinza, vagas brancas e violentas. O vento molhado regava mais ainda minha alma. Naquele dia não entrei nele, só o vi da areia que ele lambia. Mas ainda me divertiria naquele e em muitos outros mares nunca d´antes desfrutados. Agora é voltar pra fila e pegar a carga de volta, com o peito carregado de emoção do mundo. Mesmo sem saber, devia estar me sentindo como Alexei Leonov que por aqueles mesmos dias foi o primeiro a sentir a sensação de flutuar no espaço aberto. Bem que minha mãe dizia: acorda, você vive no mundo da lua....

Capítulo XIII – Televisão

 

Bombástica foi a notícia da compra da nossa primeira televisão. Telefunken. Imeeeensa! Foram precisos dois caras fortes para trazê-la até a sala. Era coisa de outro mundo. Tamanho Maracanã, gabinete jacarandá, com seletor de canal com diâmetro de uma rolimã. Ninguém sonharia naquela época com LCD. Mas aquela era a pioneira, coisa moderna. A curiosidade da freguesia aumentava. Foi a notícia da cidade. Uma multidão foi se achegando aos poucos. Os mais ousados punham o pescoço na janela ou ficavam perto da porta, meio tortos, tipo um pé lá, outro cá. Olhos arregalados, lábios apertados. Esse comportamento era, pra mim, mais interessante do que a própria televisão em si. Sabia que ela seria a causa da falta de sossego que se seguiu por muito tempo. Era a Jovem Guarda da Record e Roberto. A Neuza que trabalhava em casa dava gritos estridentes quando via o rapaz da “garota papo firme”. She loves him. Era iê iê iê, um tipo de rock brasílico. Minha mãe, sempre solícita, convidava todo mundo, todo o nosso pequeno mundo pra apreciar os programas que nem bem me lembro. Pensando bem agora, acho que esse carnaval de repente foi a causa de eu não me tornar um beatlemaníaco, como aconteceu com muitos contemporâneos meus. Gente vinha com roupinha de missa cheirando à sabão de cõco, cabelos úmidos. De noite minha mãe tinha que cantar o Calhambeque Bibi, senão o Zé não dormia. Por aqueles tempos um Boeing 707 bateu no Monte Branco entre França e Itália deixando 117 mortos, mas as notícias não eram ao vivo. Os Beatles deram seu último concerto em São Francisco, um mês depois da instauração da ditadura militar na Argentina. Creiam, foi nesse tempo que criaram To Sir With Love. Eu voava com meu aviãozinho vermelho de plástico. Tanta gente na sala vendo a Wanderléa! Eu ainda preferia as curvas da Estrada de Santos a ver TV. 

Capítulo XII – O mundo ainda não fede, só cheira

 

Não foi o medo da noite. A demora é resultado da falta de hora. Fazer hora é coisa de desocupado. Cada coisa que a gente inventa! A ansiedade na infância é maior do que na anciã idade. Graças aos bons anjos, no dia seguinte de manhã, depois daquela noite braba, meu pai pegou a gente de volta pra casa. Deixamos o quarto, o pomar, os enigmáticos e negros porões, o sótão, a máquina de arroz e a sineta do portão de ferro. Que pena! Ah, o mistério! Essa coisa tão importante aos curumins e desdenhada pelos caciques brancos. A cabine do caminhão era sempre uma festa a parte. O Chevrolet Brasil, com seus pára-lamas verdes e o resto da lataria branca, dava pulos compassados com o barulho do motor e as mudanças de marcha. Sua altura descomunal em relação à rua dava certo orgulho aos pequenos viajantes. Lembro do cheiro de café-lona-cordame da carroceria. Tinha saudades do Duque, das brincadeiras, do aroma matutino do nosso mato, da minha cama batuta. Mas também já sentia saudades dos cheiros da casa da vó que me lembro até hoje. Se fosse capaz, decifrá-los-ia aqui. Quem sabe alguma vez eu possa. Lembro de uma fragrância mofidoce. Chego a respirar mais fundo quando me lembro dele. Mas essa palavra não significa nada pra você, nem pra ninguém além de mim. Nem tente decifrá-la. Poupo-o de procurá-la no dicionário. Ela não existe a não ser na minha memória única, assim como todos têm as suas únicas memórias. Saída de Pinhal, estrada, olarias, chaminés, cemitério, chegada a Sto. A. do Jardim. Diminuí o santo, mas deixei o que importa. Aliás, entre nós, dizíamos só Jardim. Da rua principal, antes da esquina do antigo cinema, viramos à direita e estávamos no topo da descida de onde avistávamos a nossa casa. Nem mesmo começamos a descer e o Duque já desembestou em nossa direção. Aos cães não interessa se vamos ou não até ele. Importa mais o prêmio de chegar até nós. Olhos estalados, língua de fora, latidos insistentes e, depois de uma derrapada espetacular na terra, desceu seguindo o caminhão. Olás e vivas e aqui estamos de volta. Enquanto o Brasil rompia relações diplomáticas com Cuba, abandonávamos o Chevrolet Brasil e reconquistávamos nossas posições de meninos do Jardim. E as fétidas bombas americanas caíam em Hanói. Nessa mesma época Thái, um vietnamitazinho horrorizado com a guerra ainda não sabia que anos depois fugiria em um navio pesqueiro, seria resgatado por um navio da Petrobrás e teria asilo no Brasil. Depois de muita luta aqui, fundaria a Goóc. Fui dormir à meia-noite num dia próximo à fundação do Jornal Zero Hora de Porto Alegre. Também fundava-se a Organização para Libertação da Palestina – OLP. Nesse bombástico mundo, mesmo sem saber, minha vida estava prestes a mudar radicalmente.
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