Hora de crescer um bocadinho, só uma espichadinha. Chega de mato, de bucolismo, de goiaba, de bobó, de boiada, de pneu na cerca, de noite braba, de porão e pomar, vacas de bucha, açudes e lambaris. Chegou a hora de deixar o mundo idílico e ir ao centro do universo tupiniquim. Mudamos pra São Paulo. O Duque ficou tão perdido quanto qualquer cachorro em dia de mudança. O problema é que não era um qualquer, era o nosso. Correu atrás do caminhão estrada a fora por muito tempo e foi diminuindo até sumir na sua inútil e infinita correria. Lembro-me dos latidos surdos, abafados pelo motor gritante. Duzentos quilômetros nos separavam da Rua Parazinho, no Jaçanã, de terra preta com um pequeno córrego lateral a ser superado por pinguelas mínimas que davam acesso às casas. Era noite e, semelhante ao antigo ambiente, ouviam-se cricrilares múltiplos. Um misto de ansiedade e angústia tomou lugar no meu peito, enquanto olhava o Mickey estampado na lataria azul do caminhão. Sensação difícil de descrever. Se fitasse bem os seus olhos me lendo, talvez percebesse, de relance, uma pitada de apreensão. O que viria pela frente? Em primeiro lugar o duro trabalho de acomodação. Era uma casa geminada de fundos. A clássica dois quartos-sala-cozinha-banheiro. Com quintal. Um bom quintal, com três metros de muro no fundo com uns seis metros quadrados de terra e muito cimento em todas as áreas de acesso, inclusive no espaço entre os dois conjuntos de casas, onde ficava o poço artesiano. Desde que nascera, meus horizontes eram montanhas e matas. A zona norte paulistana amenizava um pouco o impacto. Afinal, estávamos próximos da Serra da Cantareira que freqüentemente seria meu destino ciclístico até os tempos da maioridade. Voltando aqui para a menoridade, lembro-me da minha mãe, no dia seguinte, passando creolina no assoalho da casa toda, fazendo as pulgas, pegas de surpresa, saltarem ardentes. Os outros meninos do bairro olhavam curiosos pra nós. Acho que tínhamos jeito de matutos, o que não deixava de ser verdade. Erres arrastados fundidos com "is" inexistentes em palavras do tipo porta faziam risos, o que, a princípio, deixavam-nos um pouco constrangidos e mais tarde, orgulhosos, por ser nossa marca de origem. Agora mesmo escrevendo essas reminiscências estou sentado em uma lanchonete na Vila Mariana, de onde se observa uma curiosa disposição de ofertas divinas: na esquina um colégio de freiras, em frente deste outra igreja que distribui passes aos crentes e, ao lado desta, um "pai" com nome chinês. Há fé de todos os tipos, há fregueses de todas as fés. É a segmentação de mercado. Mas estava na chegada em Jaçanã e se perder esse trem...Saudoso Adoniran, com seus 56 anos tinha lançado há apenas dois anos o seu trem das onze e recebeu um vizinho novinho em folha que veio lá do Jardim. Não tinha um morador sequer que não se lembrasse do trem ou, pelo menos dos trilhos, com certo sabor de perda, como um parente próximo que se vai. Uma novidade imediata foi os meninos jogando bafo. As figurinhas iriam me acompanhar por toda a vida, até a maturidade. Pausa para a infantofilosofia. Quem não vê graça em pequenas coisas dificilmente alcançará a mente de uma criança. Basta analisar a diferença de sensação entre você e um menino ao espremer uma formiga com o dedo. O caos infantil é o exercício para o equilíbrio adulto. É? Ou deveria ser? Deixa pra lá. Sinto-me um maduro infantil narrando peripécias de crianças. O equilíbrio não se alcança, apenas se persegue. Quem crescerá mais perto dele? Como diria um certo Shestertom, "a aventura pode ser louca, mas o aventureiro deve ser lúcido". Amanhã vou ligar pros meus pais e confirmar algumas coisas. Não quero mentir, nem ser traído pela memória. O mundo paulistano começa a ser desvendado e visto com olhares atentos e corações sobressaltados.
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