Quem diria que só agora, no 17º capítulo, chegamos aos 100kb de texto! Isso dá uma média de menos de 6k, assim seco, por capítulo e isso confirma o tema que trata de gente pequena. Pequena, mas com princípios. Lembra-me, depois de crescido, um cidadão que me dizia ter princípios, termo vago, que dá a entender que o fulano é mais que outros. Ele dizia que tinha princípios e apenas e tão somente de vez em quando, apesar dos princípios, os meios podiam justificar os fins. Do que se pode concluir que era uma pessoa de princípios, meios e fins. Não sei que fim deu ele, mas continuemos aqui com meus princípios. Aproveitemos bem os próximos parcos cabaites, que tratarão da escola da Rua Parazinho. Naquela época, as professoras eram zangadas e aterrorizantes. Uma me beliscou o braço que deixou uma roxidão doida. Uma conversinha de nada com o vizinho. Minha mãe foi reclamar e a fessora retrucou que crianças mimadas são malcriadas. Minha mãe disse que não tocasse mais a mão em mim, que se tivesse reclamação, que mandasse chamar que ela iria à escola e que deixasse pra ela as providências mais drásticas. Afinal, minha mãe era exímia professora lá no interior e nunca, dizia, precisou violentar aluno. Ela não me mimava. Exigia aplicação nos estudos e nada de bagunça na sala de aula. Tinha castigo e tudo. Como geralmente eu era tranqüilo e aplicado, não tinha maiores problemas. Acho que saiu daí a indignação do beliscão. Parece que a tal professora entendeu o recado, porque nunca mais buliu comigo. Com o tempo fui percebendo que as tais professoras eram meio nervosas. Outro dia, certa “mestra” catou minha orelha esquerda e usou como suporte para chacoalhar minha cabeça de um lado pro outro. Aquilo doeu! A vermelhidão que ficou era escandalosa. Tive vergonha e mais uma vez tiveram que ouvir sermão da minha mãe, agora na presença da diretora, que disse que isso não ia mais ocorrer, que a tal mestra estava estressada, e etc. e tal. Não deve ser fácil lidar com centenas de diabinhos desinteressados no fa, fe, fi, fo, fu da professora, mas péra aí! Os diabinhos são os mesmos desde que a humanidade existe. Talvez o que tenha faltado desde sempre é gente preparada e técnicas de ensino que superem a tensão geral de uma sala. Por aí percebe-se que o caminho não é tão suave assim. Dessa escola não me lembro bem dos nomes das professoras, talvez pelas suas atitudes, talvez pela minha pouca idade, talvez por que só estudei lá por um ano. O fato é que os pouquíssimos mestres que se mantêm em minha memória foram todos enérgicos, porém ótimos profissionais. Mais adiante vou falar deles, mas adianto que não havia bagunça nas suas aulas, provavelmente porque sabiam prender a atenção dos alunos. Voltando a meu tempo primário, acho que tive certa angústia em ir á escola, mas fui aprendendo aos poucos a conviver com pessoinhas de vários estilos e perfis e a entender, desde aquela época, o quão importante é a diversidade no aprendizado. Era um pouco tímido, é verdade, mas integrado no meu mundo. Fico imaginando a vida sem letras de um Kaspar Houser que cresceu criança ou de uma Hanna Schmitz que chorava ao ouvir as leituras do seu pequeno amado. O mundo acontecendo e eles ficando. Isso sim é isolamento. “Matéria dada, matéria estudada”, era a frase predileta de minha mãe. Nada de rua antes da lição. E com capricho! Dava-me orgulho fazer certo e bem feito. E depois da lição ia correndo e feliz para o paraíso idílico: a rua. Pasme, ela ainda não era um lugar perigoso. Era liberdade só. Era proibido proibir. Só não podíamos confiar em ninguém com mais de trinta anos e não aceitar balas de ninguém. Éramos alheios aos vietgongs que resistiam aos ianques e brincávamos de bate-lata enquanto Che-Guevara era assassinado. Um, dois, três, plac, plac, plac, Ernesto foi pego atrás do muro da casa do João.
Se for um leitor relativamente assíduo, sabe que um livro, revista ou jornal, ou ainda um folhetim, ou mesmo um folder fica feliz por sair da inanição. Ah, desvairada Paulicéia, saudosa paródia andradiana! Mário nem sequer imaginava que nos meus tempos de adulto, veja o insulto! - o trema cairia e ficaria estatelado ao lado do u, tremendo. Veja que, apesar de serem dois pingos, falamos trema no singular. Passageiros pacatos, esquecidos, perdidos em devaneio no ponto escultural moderno em forma de ferradura. Esta inventada, se fosse imantada, manteria os pingos pela força da atração. Mas não, o u não é mais aquele, não atrai mais ninguém, nem um pingüim! Meu desatualizado corretor de textos colocou trema em pingüim, sem me perguntar. Falava da Paulicéia de Mário, que virará a geléia de Gil, mais longe das Gerais. O cheiro era outro, menos morno, mais agridoce, mais ardido, menos comestível. Sim, porque no Jardim quase dava pra comer o cheiro. Já no Jaçanã não tinha essa vontade. Eles só passavam e pronto. Passaram a ser mais passageiros, qual o trema. Chega de lengalenga e nhenhenhém. Hora de ir pra escola. O caminho era curto. O livro era o Caminho Suave. Qual contemporâneo não se lembra? Hoje, sem exagero, está perto da sua centésima trigésima edição. Literalmente! Alguém aí puxe pela memória a lição do x que, acho, era assim: puxa você, puxo eu, com um filhote de cachorro puxando a saia de uma menina de trança, brincando de cabo de força. Pelo menos tenho isso na lembrança. Pois não é que - viva a evolução! - na 127ª edição de 2008, na lição da chiante letra, encontramos a palavra xadrez, com o xá dentro do desenho de um tabuleiro e o seguinte texto na página 62:
Bebê mexeu na caixa do xadrez.
Puxou...puxou...
A caixa caiu.
Eis o x da questão. Bebê xereta, esse. Lá vai um pedaço de nariz de cavalo de madeira taco a fora. Um naco de coroa de rainha, uma franja de torre. E as peças não são mais as mesmas. Lembro-me quando íamos ao asilo que o Tio Padre dirigia lá em São João da Boa Vista. Velhos curvos e babentos. Perfeitas bruxas com narizes pontudos e maxilares tortos a sorrirem com olhos brilhosos em nossa direção. Cheiros vários. Jardins imensos, árvores de tamarindo azedo, azedo! E entre uma e outra bala com formiga, o tio nos ensinava a arte do Mequinho. Ele ficava nervoso quando nos expúnhamos inocentemente ao seu ataque. Dizia alto: “tú, tu quieres morir? Como tu rainha!” Meio assim, misturando castelhano com português, apesar de ser catalão. Mas era bom, diferente, e acabamos aprendendo a jogar. Não tão bem assim, mas dá pra brincar. Afinal, no final do jogo rei e peão voltam à mesma caixa. O tio tinha uma coleção de frases de traseira de caminhão que guardava num grande livro, feito coleção de selo. Na cidade era conhecido como o padre-carona, alcunha que lhe valeu um corcel vermelho de plástico com os dizeres: “Padre Vicente Fontanet – o padre carona”, com uma fita dos rotuladores de então também vermelha e letras brancas colada no carrinho (criança lembra de cada detalhe!). Ai de quem não parasse pra levá-lo aonde queria! Comia como um padre e ao fim de uma boa refeição sempre dizia “comi como um padre!” Até hoje repito esta frase quando como muito. Morreu cônego com mais de 90 anos, acho que 94. Figura extraordinária. E tudo isso por causa do xereta do bebê do x da lição da suave cartilha. A escola era no fim da rua. As meninas bonitinhas, mas nenhuma Carmem Ramasco. Iniciava meus estudos básicos – riam - quando criaram o Mobral e a Funai, na mesma época do início da TV Bandeirantes e da Família Trapo, na Record. Com nova Constituição da dita linha dura e presos sem fim, o Brasil da bossa era um deboche só. Mas nem tudo estava perdido: a Mangueira foi campeã com o enredo: O mundo encantado de Monteiro Lobato e Edu Lobo e Capinam venceriam o Festival da Record com Ponteio. Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar, pra cantar, pra cantar. Quem me dera agora!
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