Lá no Jardim, nos desbravamentos das matas, verdadeiras florestas, rios caudalosos, situações muitas vezes hostis, mesmo assim, nunca fui vítima de nada digno de nota. E, no entanto, estava eu a desvendar os segredos do terreno baldio ao lado da casa do Jaçanã, eis que uma danada de uma aranha subiu em minha perna e não teve dúvida, picou com gosto. Até hoje lembro-me bem da “cara” dela, quer dizer, do jeitão geral. Não era uma enormidade, tinha tamanho médio, no máximo três centímetros (cinco na lembrança de menino). Mas a picada foi doída e ficou por muito tempo. Na região do ataque, altura da batata da perna do lado de fora ficou uma mancha vermelho-arroxeada. Gritei pro João que era o “Repórter Esso” da família e minha mãe correu comigo até o Pronto Socorro de Santana, único com soro antipeçonha. Tomei a tal injeção e, embora o local tenha ficado feio por uma semana, não houve maiores conseqüências. Seriam os matos daqui mais perigosos do que os de lá? Acho que não. Acho que a tal aracnídea estava com TPM e só. Aliás, sempre gostei de aranhas. Cheguei até a domesticar uma caranguejeira batizada de Filomena, bonita e peluda, do tamanho de minha mão depois de grande, “colhida” injustamente de seu habitat, durante uma travessia da Serra da Mantiqueira entre São Francisco Xavier e Monte Verde. Como não tem veneno, tinha até hora de passeio pela casa, visitas a outros amigos nossos e era alimentada com insetos vivos na sua caixa-pensão. A terafosídea parecia feliz e saudável e acabou entregue ao Instituto Butantã, onde deve ter morado até seus últimos dias. Coisa de adulto. De volta à época do texto, passei a olhar aquele mato com mais cautela, sempre à espreita de artrópodes suspeitos. Outro menino da rua disse que era a favor dos americanos na guerra, mas ninguém mais era e disse a ele que se todos eram contra e ele era a favor, então ele era do contra. A indesejada das gentes apresentou-se ao Bandeira do Brasil modernista de antes. Deixou-nos com suas cinzas das horas. Foi-se a estrela da vida inteira no mesmo ano da criação do Pasquim e de Veja. Sinal de recuperação, coçava a ferida da perna. A lição do cachorro só tinha ca, co, cu. O ce e o ci eram da lição da cebola. Acho que era pra não bagunçar nossa cabeça. Pensavam que podíamos dizer sachorro ou quebola?. Coisas da cartilha, que só ensinou o cedilha mais no fim, na lição da moça. Até no desenho atual a moça parece ser daqueles tempos, simples, sem o estilo das donzelas do século XXI. Mas aquele ano foi efervescente! O mundo explodia em revoltas, em prol da liberdade de expressão, cabelos compridos, rock´n roll, estudantes passeatando nas ruas de Paris, Londres, São Paulo e Rio. Costa e Silva assinou o AI 5. Ai de nós, que seguimos caminhando e cantando com Vandré. Com ou sem razões, progredimos entre vozes e canhões. No paraíso da Rua Parazinho jogávamos queimada e uma bomba destruiu a entrada do jornal O Estado de São Paulo. Cartilha debaixo do braço e uma caminhonete bateu no muro do QG do exército de São Paulo com 50kg de dinamite. A gente não sentia nada disso quando a mãe nos levava na “cidade”, que era o nome que se dava ao centro, como se morássemos na roça. Principalmente quando íamos ao dentista, na Galeria Nova Barão, passávamos no Mappin pra ver os brinquedos. Era emocionante. Na primeira vez foi um êxtase só. Nunca tinha visto tanta cor e tantos brinquedos que se mexiam sozinhos. Cuidadosamente, a mãe percebia os que mais nos empolgavam e fazia de tudo pra que ganhássemos no Natal. Lembro-me do Forte Apache, com índios de cocares e penas apontando flechas e arremessando machadinhos com suas tendas, soldados com lenços no pescoço de bruços apontando espingarda para algum índio fictício, béing, béing, era o som de tiros saindo da boca, os muros do forte de madeira, tudo de plástico. Os ianques novamente venciam, agora os cheroquis. Polícias de lata de fricção com sirenes e luzes piscantes. O mercado jorrava soldados, quartéis e tanques de exército nas mãos das crianças de todos os modos possíveis. E bolas, muitas bolas de capotão que não podiam faltar. A que mais me lembro era verde e amarela. Passávamos sebo na sua superfície pra manter o couro por mais tempo. Simplesmente venerava misto quente no pão de forma e iogurte batido numa lanchonete da Sete de Abril. Ainda sinto aqueles gostos. Também morreu o Stanislaw Ponte Preta, Caetano e Gil foram presos, pra não dizer que não falei das flores.
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