Capítulo XXIII – Parler-vous Français?

Passando o dedo devagar na sobrancelha, costumava me preparar pra dormir. Isso me dava uma morbidez gostosa que proporcionava uma sensação de desapego paulatino deste mundo e me levava a outros, nublados, que iam se dissipando no nevoeiro do fundo azul-claro da tela do sagrado coração de Jesus. Sumiam os dedos em riste e lá estava a visão totalmente embaçada dos sonhos de piratas lidando com torrentes, rompendo espumantes cristas salgadas. Pálidos e perplexos marujos agarrados às cordas do convés tremulando fita vermelha na testa, ávidos de aventura antes de largar a casca. Cabeça, olhos, boca e pescoço de dragão soberano ante as revoltas águas. Suor no leito. Era tão real! O coração exposto a me encarar. Hora de acordar.

 

Educação física nas Palmas do Tremembé. Dia de jogo. Mal amanhecido o dia e a névoa fresca da manhã me acompanhava. Velas vermelhas de macumba nas esquinas em sinal de rituais noturnos do tranca rua. Não pega com a mão isso, não chuta com o pé aquilo. Longa caminhada até o campo quase vermelho de falta de grama. Traves do gol descomunais para um goleiro como eu, de salão. Joelheiras postas, luvas improvisadas de guidão de bicicleta, camiseta lisa de mangas compridas, batida com calcanhar no poste.  Ar sério. Silva o juiz e rola a bola. Correria longe, rebote da defesa adversária, bloco se aproximando, batidas de pés ecoam no solo duro, rachado. Tensão. Chute de meia distância, dois passos à esquerda e impulso intenso. Mãos trocadas. Desvio dos dedos. Ainda deu pra ver, no ar o resvalo no ângulo do travessão... Felizmente pra fora! Frisson geral. Nesse dia ganhei o mundo e um ponto a mais na média. Volta pra casa de peito estufadíssimo, promessa de vaga de titular. Bobagem, ninguém a quer, a não ser eu. Mas naquele momento ganhei a vaga de mim mesmo. Me superei. Todos da aula do Pierre vão saber.

 

Pierre era o professor de francês. Grande e alto, pele delicada e vermelha. Toda aula era a mesma coisa. Falava baixo e não se empunha como mestre. Repetia sempre as mesmas frases do tipo Où vas-tu? Je vais a l´école, porque ninguém prestava atenção e acho que ele achava que aprenderíamos por repetição. A bagunça era tamanha que rolavam gargalhadas e bolas de papel entre as carteiras, brigas de vizinhos e, inadvertidamente, quando frenéticos aviõezinhos já voavam pela classe, no meio da lição da mademoiselle, tuc, um dos ultraleves acertava a cara ou a cabeça do atônito francês de nascença, o que causava inevitáveis gargalhadas dos pestes de plantão. Isso - reflito agora depois de grande - devia ser humilhação extrema a um ex-morador da Gália transalpina, porque ele ia transformando sua enorme cara vermelha em roxa, à la Hulk de cor trocada, olhos dilatadíssimos e PÁ – uma batida descomunal de mão aberta na mesa de madeira que, ato contínuo, calava qualquer som a centenas de metros. Esclarece-se que sua mão era do tamanho de uma raquete de tênis e certa vez literalmente afundou uma mesa mais frágil. A este tenso cenário seguia-se um silêncio mortal e logo o monsieur professeur com olhos totalmente esbugalhados gritava os mais altos berros, ou berrava os mais altos gritos palavras em quase português do tipo: “pestits”, “ignorrants”, “mentecapts” junto com mais batidas comprometedoras à integridade dos jacarandás que, Deus seja louvado, é gênero de mais de 100 espécies e as imbuias, então ainda abundantes, que os homens não são de muitos louvores, das aroeiras, cedros e cerejeiras. Mais sofriam os freijós, guarnecedores dos cantos escuros e internos que, sem esperar tamanho impacto, envergavam de medo e quase embranqueciam. A aula acabava mais cedo porque, descontrolado ao extremo, a ponto de engolir vivo algum de seus enfants pupilles, era detido por outros mestres ou pela diretora que não sabia mais o que fazer. Os alunos, sabidos que eram, fingiam não ser nada com eles.

 

Nessas alturas já exalava o aroma do pão com carne moída, molho quente e queijo derretido que vinha lá da lanchonete esperando pelas pequenas e ávidas bocas. Enquanto o mundo conhecia os Supertramps, ricos meninos que tinham algum cruzeiro amassado e apertado na palma da mão corriam na direção do quiosque improvisado pra chegar primeiro e garantir seu lanche. Outros menos encruzeirados desembestavam à cantina de olho na sopa, meio rala, é verdade, mas saborosa. Em dia de mão vazia, preferia o café com leite, ainda morno da lancheira e um amassado pão com ovo frito, que às vezes trocava por dois pirulitos G-crack (nem sei como se escreve) que me lembro bem, era um retângulo de caramelo com vários riscos paralelos e na embalagem vinham jogadores chutando bola. Aliás, tinha um pirulito de chocolate que era uma bola de capotão perfeita que ia se desfazendo a cada chupada. Tinha dia que passava o recreio trocando produtos mirins em busca de um escambo perfeito. Às vezes acabava com um punhado de ping-pong, uns de sabor hortelã e outros tutti-frutti, mas tinha vez que voltava pra sala eufórico com algum soldadinho de plástico e falava e gesticulava, pulando e chutando o ar de contentamento, dizendo pra todo mundo olha o que eu troquei com o Nelson!!

 

Linda Eastman estava se casando com o Paul Mc Cartney, juntando seus trapinhos e Samuel Beckett, com seu teatro do absurdo dos desesperados esperando por Godot, ganhava o Premio Nobel. Caetano brincava com os argonautas e receitava: atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu.

 

Capítulo XXII – Vasto Mundo

 

Inexplicável o atraso do prelo, não tem dado tempo nem de rezar, gasto no quarto um quarto de minha vida, ao contrário de muitos que gastam um terço porque rezam.

 

Vendo a torneira jorrando água na jarra, me deu vontade de mijar. Perdão pelo chulo termo que de intransitivo (quem mija, mija e pronto) migrou rápido para transitivo direto e estava por virar pronominal. Danou-se! Como sempre, nessas horas aparece algo pra atrasar o alívio. Era o Humberto Silva convidando pra jogar bilhar na casa dele. A vontade acelerou pela excitação do jogo. Apertei um bocado minha torneira. Peraí um pouco que vou no banheiro. Já ia o jato morno produzindo amareladas mini-bolhas n´água e minha cabeça olhou pro teto, com olhos fechados e boca aberta em êxtase.

 

Íamos sempre na casa dos Silva. Sei que não somos americanos pra falar assim. O nosso normal é falar que vamos na casa do fulano e pronto, ao passo que os ianques costumam dizer que vão na casa dos de tal. Os irmãos maiores, e eles eram grandes, sempre se apresentavam assim, Humberto Silva, Ariovaldo Silva, completo. O mais novo, porém não menos crescido de tamanho, chamava-se só Luisinho. Não que ele não tivesse sobrenome, mas se apresentava como a maioria, simplesmente Luisinho, e estamos apresentados. Não preciso dizer que os pais deles eram grandes. O pai, dono de um ferro-velho, vivia sujo de graxa. A mãe, do lar. 

 

A família gostava da gente porque não caçoávamos deles. Apesar de muito grandes, eram extremamente ingênuos e os meninos da rua costumavam bulir com os três. Isso até ensinarmos algumas coisinhas a eles. Descobriram que uma bordoada de vez em quando faz moleque chato passar mais longe. O Ariovaldo, a certa altura, tivemos que desensinar, ou melhor, explicar que não podia exagerar que não era caso de mandar ninguém pro Pronto Socorro de Santana. Ele batia e ria. Uma risada às vezes preocupada de quem sabe que aquilo não é legal, às vezes curtida, saboreada a cada tapa nos surpresos pivetes. Quando, no meio de uma pisa, passamos a pedir que eles parassem de bater, os outros meninos descobriram que a culpa era nossa. Nossa não, não sabíamos que eles iam gostar tanto e, de qualquer forma, passamos a ter um poder dobrado em número ou, melhor dizendo, redobrado em tamanho, o que nos deu uma tranquilidade que nem sequer imaginávamos. O fato é que os pirralhos da vizinhança ficaram, como se diriam nas gírias futuras, espertos! Não mexiam mais à toa nem com os Silva nem conosco, que era líquido e certo que ficariam roxinhos da silva. Aqueles irmãos passaram a lembrar os gauleses do Asterix e os meninos da rua em geral, os romanos. Vi muito deles, os mesmos que antes chutavam as bundas, beliscavam e estapeavam as gaulesas nucas e outras diabruras, agora correndo de pânico ao avistar um Silva.

 

A casa deles era grande e térrea. Enquanto jogávamos, e isso eles sabiam fazer bem, a mãe deles servia goiabada quente com pão e refrigerante. Coisa de doido, muito bom! Eram de Araraquara que, infeliz coincidência do destino, é um topônimo com muitos erres e caía como uma luva ao sotaque arrastado do interior. Pelo menos sou de Caconde. Pior pro João, que até hoje, mesmo brincando, fala que nasceu em Pinhar. Eles estudavam em outra escola – Rodrigues Arves, do lado esquerdo da Av. Ataliba Leoner, pra quem vai pra região centrar.

 

O Rodrigues Alves, acho, dispensa apresentações, né? Terceira maior fortuna do país da época, além de presidente fora ministro da Fazenda e tinha uma fazenda de 400 cômodos, onde as refeições eram servidas com talheres de vermeil, que pra mim que sou quase mineirin, isso é uma corzin assim vivin, o que não é de todo mentira já que, após consultar o dicionário, vi que se trata mesmo de uma cor rubicunda. Salve salve os Alves ainda vindouros! Salvem os prudentes de moral. Não se trata apenas de um número par. Veja que são 400! Nem 40, nem quatro, que muitos têm só isso de acomodações. Nem mesmo Ali Babá, o pai de todos, sonharia com 400 seguidores. Contra Xerxes, Leônidas que era Leônidas só tinha trezentos para defender as Termópilas, lugarzinho sinistro, palco de guerras sangrentas envolvendo macedônios, gálatas, helenos, romanos e sírios. Com o mesmo número de 300 soldados, Gedeão retomou a parte central da Palestina aos invasores midianitas. Não é à toa que Gedeão significa matador. Mas 400 cômodos! Se friso e refriso é porque a frieza dos números em geral impacta pouco. São só números insignificantes, ao contrário da quentura de tantos cômodos formados por sete comovidas letras que lhes dá significado ímpar. Um cômodo para cada ano da existência histórica do carnavalesco país de então. Esteja claro este último advérbio de tempo. Alves não morreu no vulcão, mas no Rio. Depois dele, o próximo Presidente da República paulista, desculpe o bairrismo, foi o ilustre conterrâneo cacondense Ranieri Mazzilli, por poucos dias, é verdade, mas foi, quando eu nem sequer tinha completado um ano. Alguém aí conhece alguma escola com o nome dele? Tem pelo menos uma em João Pessoa e outra em Jundiaí.

 

Essa história de nomes de ilustres nas escolas é normal, eu sei, mas alguém se lembra quando pequeno das suas biografias? Que eram divulgadas isso eram, mas ninguém captava. Podiam pôr outros nomes, sei lá, de personagens de estórias. Por exemplo, Escola Estadual do Primeiro Grau Jeca Tatu. Você falando pro seu colega: vai no Jeca hoje? Hoje não, que não tem tatu que agüente aquela professora Leocádia. As crianças falavam que iam pro Rodrigues, pro Albino, que era mais fácil de falar do que Albino César, que ninguém pensava no ilustre, o que vinha à mente era o espaço físico da escola e só. Mas o Albino César foi no colégio, nome do segundo grau ou ensino secundário daqueles tempos. Aguarde, que aqui pra nós ele ainda é futuro. Ave César! Se é que posso me atrever a renomear um ex-presidente ao estilo do blues, deixo o Rodrigues “400 cômodos” Alves.

 

Voltemos aos Silva. Eles passaram a colecionar as figurinhas do mesmo álbum que a gente. Assim podíamos trocá-las e era mais fácil preencher o álbum. Era um de animais, desde os pré-históricos até os mais modernos. Nem acreditei quando dois cromos duplos completaram um plesiossauro magnífico, na primeira página, com suas enormes patas submersas e o tronco e o pescoço descomunal fora d´água, com algas deslizando de suas mandíbulas gigantescas. Era o principal sauropterígio da época. Desde então decidi ser paleontólogo. Pena eles terem acabado.

 

Rivelino fazia propaganda de opala e Jackie Stwart venceria o campeonato de F1. Mais tarde, sua escuderia – Stwart - faria sua única pole-position conquistada por Rrrrrrrubens Barrichello. As cinzas das horas também flagraram seu criador, Manoel Bandeira. Como diria seu admirador Carlos Drummond, que declamava, declamava e reclamava, mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo...

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