Muitos dirão que é profanação do sagrado. Não! Respeito tudo em que Jesus cria, até o seu fim sangrado. Acho mesmo que morreu crente que nos salvaria. A questão é que ninguém ainda se salvou, que eu saiba. Os mesmos muitos dirão que é uma questão de fé e creio mesmo que é. Só que não a tenho. Pelo menos não do jeito pregado pela santa madre igreja. O livro dos livros é o grande best seller da história. Bastariam estes epítetos. Mas tantas contradições não fazem das Sagradas Escrituras mais precisas do que as Escritas Discretas, minha Virgem Santa! É muito tempo, antes e depois de Cristo. São muitas versões, traduções, mais as interpretações da Casa de Deus, por intermédio do Espírito Santo. Quantas interrogações estão por trás da Verdade, da Palavra! Hay que tener fe. Tudo pois que está escrito deve ser “crido como divinamente revelado”. Ou seja, creia e creia, tenha fé e tenha fé. Pobre São Tomé!

NORDESTÊS

 

O nordestês, língua falada na região banhada de norte a leste pelo Oceano Atlântico, que divisa ao sul o Estado de Minas Gerais e a ocidente o Estado do Tocantins, apresenta peculiaridades na fala de que pouco se fala. Assim sendo, um pouco dessa rica matéria será usada como ferramenta para identificar outro traço cultural típico da árida região, na qual sobrevivem espécies sobre-humanas, sub-hídricas, quase tão secas quanto o solo. Uma análise dos componentes das solas dos bípedes humanóides revelaria um arranjo físico-químico intermediário entre pele e terra, ambos enraizados na paisagem, ora salmonada, ora pardacenta. Oxchchchch é, de longe, a interjeição mais pronunciada nas terras das caatingueiras. A longa série de consoantes chiantes repetidas após um único o, é uma extensão de “oxe”, sua forma mais simples e derivação regressiva de “oxente”, por economia, como diria Saussure, ou por folgança, como diria Virgulino. Dependendo do grau de exclamação que o tema mereça, pode variar entre um simples “oxi” a um complexo oxchchchch, cheio de ceagás como já mencionado. Há quem diga que é termo adaptado de bullshit, que na língua inglesa significa algo como lorota, besteira, papo-furado, que teriam sido pronunciadas por ingleses não tão bem-humorados durante a construção de uma ferrovia no Ceará e que foram mal imitadas pelos atônitos ouvintes locais. Na opinião de outros seria redução gradativa de “oh, minha gente” para “oh, gente” que, pela troca peculiar daqueles falantes do g pelo x, chegou-se ao oxente. Outra palavrinha com som também chiante e com alto grau de ocorrência no nordestês é “vixe”. Essa gente mais uma vez surpreende, já que é capaz de pronunciar tal vocábulo com farinha na boca. Não é pra qualquer um. De modo similar, vixe é interjeição, cujo prolongamento chiante também depende do grau de exclamação requerido. Por exemplo, um jegue escorregando pela ribanceira pode gerar um vissshhhhhhhhhhh, enquanto que um lenço que simplesmente escapa da mão pode redundar em apenas um vish, ou vigi, ou ainda vixi, assim simplório. Pode ou não vir acompanhado de Maria, ou ainda, quando o sujeito é fervoroso devoto de alguma específica, pode dizer coisas do tipo “vixe Maria do santo sepulcro da conceição dos ouros” que dá noção de algo mais exacerbado. Aliás, vixe Maria é corruptela da expressão “Virgem Maria!” Não se confunde com “vici” que é um termo com entonação vocativo interrogativa e que alude a uma confirmação de frase, geralmente no final da oração, assim como “certo?”, “está bem?”, “está vendo?” ou “num sabe?” Ex.: Hoje vou fazer carne-seca na moranga, vici? Saindo do ramo da chiadeira, mas ainda seguindo o caminho das interjeições, há o “eita”, praticamente sinônimo de oxe e vixe, que pode anteceder “nós” pronunciado como “nóis” ou o ainda mais complexo, “eita nóis lá em casa!”; eita nóis lá em Santana do Livramento”, e assim por diante. Às vezes é reduzido, na forma “eta” apenas ou composto – eita-ferro! ou eita-pau!. Um nordestino atrasado poderia dizer: osshh, vishh, ou ainda o eita, já são dez horas! Hora de mudar o tom da prosa. A comida desses moços (sua longevidade está abaixo da média do Brasil) é, no entanto, um folguedo repleto de cores vivas, texturas magníficas e alegria surpreendente frente a sobreviventes. A já mencionada farinha é sorvida pura ou dá liga a todo tipo de angu. Se alguém servir a mesa sem a famigerada farinha a coisa vira um angu de caroço! Um dicionário de culinária nordestina provavelmente iniciaria pelo baiano abará, que é feito com a mesma massa de feijão fradinho do acarajé, só que o primeiro é cozido e este é frito. Entre os dois haveria o acaçá, que é uma massa de milho cozido servida aos orixás nos rituais candomblé. Reparem quantas oxítonas no léxico afro! Lá no fim, num zás, o vatapá, outra massa de consistência cremosa feita de farinha de rosca, fubá, gengibre, pimenta-malagueta, amendoim, castanha de caju, leite de coco, azeite de dendê, azeite e tomate.  Vishhh santa, que a fome era tanta! Eita coisa boa o bolo de macaxeira, feito da simples mistura de mandioca com coco, num sabe? Bobó de camarão, camarão na moranga. Tudo colorido naturalmente. Se faltar o prato ou a farinha, que venha a rapadura que é mais doce que o doce de batata-doce, mas não é mole, não! Pura cana em tabletes, lingotes – Se falta dentes, que não falte língua: basta chupá-la. Dos engenhos sai o puxa-puxa que é – contradição – a rapadura mole, com consistência intermediária entre os estados físicos líquido e sólido, um elástico ou borracha dulcíssima. Se é bom? Oxi, se é, vish, menino! Voltando a chiar, tem o xinxim, feito de carne temperada com alho e cebola ralados e refogada em azeite de dendê com camarão seco, amendoim e castanha de caju. A carne do calango tem textura dura e, ao mesmo tempo, elástica, vixe santa! Praticamente um chiclete. Tem o mugunzá que é feito de milho branco para canjica, canela em pau e em pó, leite de coco e de vaca e servido em ritual para orixás. Para quem não é orixá, mas é filho de Deus, pode acrescentar um bocadinho de leite condensado. Diliça! Imaginem os cheiros de tudo isso! Picantes, fortes e atraentes, podem precipitar, amiúde, convulsões intraintestinais aos menos habituados. A mim que não, que quase tenho moela e um apetite estimulante, vici? Como canta Gil, “cores vivas, eu penso em nós, pobres mortais...” Deus seja louvado e abençoe eternamente essas terras do além, de além-queijo, de tanta pobreza e também de tanta riqueza, amém!

 

Trema

 

O trema caiu e seus pontos ficaram estatelados ao lado do u, atônitos e trêmulos. Pontos passageiros, pacatos, esquecidos, perdidos em devaneio e sem rumo. Subir de volta já não podem. O formato curvertical da letra impede. Dormiam um sono secular, até que um pequeno grupo decidiu que aqueles caras deveriam ser expulsos, cada qual da sua ponta de u.  Empurraram a última vogal que se moveu feito balanço pra lá e pra cá, feito terremoto de nove pontos. Cada ponto tentava desesperadamente se apegar à parte da letra que lhe cabia, seu lar de tanto tempo, tudo em vão. O dedo do presidente daquele pequeno grupo deu mais um impiedoso impulso até o u ficar totalmente de lado, deixando os dois pontos à mercê da lei da gravidade. Pior para o ponto que estava mais alto, pois a queda foi mais grave. Quando deixaram seu u não dava mais para voltar e a letra foi se estabilizando, parando de balançar, até que parou, já sem seus velhos pontos. - E agora?, disse o ponto de baixo. Ainda muito tonto, o outro ponto foi voltando a si, aos poucos. – Nnnão sei, isso nunca aconteceu antes, precisamos de um outro lugar. O primeiro ponto disse que conhecia uma língua que alojava dois pontos em várias letras, não apenas no u; talvez fosse mais receptiva, no que o segundo disse: - e se eles forem nazistas? Melhor não. E assim ficaram por um longo tempo vagando sem saber do destino que os aguardava. Certo dia encontraram uma frase comprida e viram seus pedidos para ficar serem recusados, letra após letra, até que a frase acabou. Foi aí que ocorreu o inesperado: a frase ainda estava em construção e acabaria com a palavra seguinte. O u ignorou totalmente os lamentos dos pontos errantes – disse que estava proibido de receber pontos, sob pena de se tornar uma letra errada. Foi quando a vizinha letra i falou para se apressarem, antes de aparecer umas tais aspas, pois logo após as letras n, t e e seriam necessários exatamente dois pontos, só que agora tinha que ser um acima do outro. Os pontos se apressaram e, usando a mesma linha invisível que os sustentavam quando pertenciam ao saudoso u, se instalaram logo após o último e, e o que se sucedeu foi que apareceu na linha debaixo as aspas com o texto:

 

 “Não se usa mais o trema (¨), sinal

colocado sobre a letra u para indicar

que ela deve ser pronunciada nos grupos

gue, gui, que, qui”.

 

Assim, os dois pontos, felizes da vida, aguentaram (sem trema) firmes por muito tempo na nova função, o que possibilitou descobrirem que nada é para sempre...

 

 

LOMBRIGAGEM ESPANHOLA

Espanhol come!! Não é de gula, é ritual. Comer faz parte da cultura. A Guerra Civil deve ter alguma coisa a ver com isso. Medo de não ter o que comer como naqueles tempos. Por isso espanhol estoca tudo quanto é coisa de comer.  Espanhol não faz boquinha, faz bocão. Come com prazer pão, batata, azeite. Ah como são panturras esses espanhóis! O pão acompanha todo tipo de cardápio, desde o mais básico. Creme de chocolate quente com pão, comida com pão, sopa com pão, até frutas com pão. Uma tia minha, a tieta Elvira, comia pão com figo! (Minha esposa, que é brasileira, gosta de pão com banana). Aliás, essa minha tia tinha cada costume! Era aficcionada por limpeza. Passava o dia limpando. Apesar de comer bem, não comia na casa de ninguém, nem mesmo dos parentes. Levava “marmita” com comida que ela mesma preparava. Lavava verdura com detergente e, depois de descascar, lavava a banana. Difícil de acreditar, mas é verdade. Era pão-dura. No Natal nos dava presentes do tipo escova de dentes, pente, ou coisas afins. Se ia no mercado ou feira, ai de quem não devolvesse um ou dois centavos! Não apenas exigia o troco parco, como também dava um sermão daqueles – “por isso que esse país não vai pra frente” e quetais. Essa era outra mania dela. Falar mal do Brasil. Tudo daqui é ruim. Um dia perguntei porque não voltava pra Espanha, minha mãe me beliscou e disse pra eu não ser espanhol. Fofocava sobre a sujeira das casas e pessoas. Duro era andar com ela cheirando a naftalina. Sim, por que tinha essas bolinhas espalhadas por todos os armários e guarda-roupas da casa. Até seu hálito exalava naftalina. Bom, mas deixando a tia de lado, que Deus a tenha (será que o céu é limpo?), voltemos à glutice quixotesca. A batata cozida é fundamental. Sopa de batata batida, purê de batata, batata com isso, batata com aquilo. E devidamente regadinha com o genuíno azeite espanhol. Minha mãe só usa Carbonell. Maionese, muita maionese! Com batata, ovos e cenoura e vagem bem picadinhas, cebolas e só um dente de alho pra dar gosto. E dá-lhe azeite! Sobremesas não podem ser poucas. La crema, um tipo de creme de ovos com baunilha e canela em pau é fantástica. Come-se em cumbucas com colher. O pudim de leite condensado é um delírio! Com aqueles furinhos e calda de caramelo...Manjar de côco com ameixas em caldas, valha-me Nossa Senhora! Lombrigagem braba!

Escritas Escrotas I - Gosma de Sagu

No início dos tempos veio o Cosmos e tomou o lugar do Caos no vazio do universo. O espaço era invisível. A luz se fez e vazou a taça de vinho após percorrer anos e anos-luz. Brotou da estrela e aqueceu o chão da Terra. Do longínquo big-bang ao bang-bang do mundo o tempo espera o tempo da chegada do Messias para parar. E aí tudo será infinito e insatisfeito. Não mais se pagará pela vida eterna, mas pela morte inatingível e o homem terá saudades dela. A matéria e o humus se acabarão. Restará apenas o espírito sem vinho. A Terra se vingará. O fogo profano tomará o lugar da luz minguante e queimará o último galho retorcido. O Caos retomará o lugar do Cosmos e teu filho viverá na eterna escuridão fria bebendo gosma de sagu.

Escritas Secretas I - Bandeira

 

Estou verde de raiva

Meus dentes amarelos estão à mostra (aos políticos sacanas)

 Não tenho olhos              

Estou  branco de fome

 As estrelas se escondem no céu

Ame-o ou Deixe-o (eu não (?))

 

Escri, escro, secretas

As escritas continuarão discretas. Porém, às vezes também escrotas. Ainda discretas, posto que há dois ou três leitores mais ou menos assíduos. Combinemos pois, caro leitor, que escrotas serão subclasses das mesmas escritas discretas. Assim, a partir de agora, quando um texto se identificar mais com essa ou aquela subclasse virá precedida de indicação específica acrescida de um número. Tais explicações, eu sei, mais aborrecem que esclarecem, mas minha intenção é fazer com que não haja enganos sobre minhas intenções. De modo que quando houver uma indicação do tipo “Escritas Escrotas VI”, qualquer crítico, inclusive você leitor, poderá dizer livremente: - que texto escroto! Por fim, ainda haverá as escritas secretas, as quais cumprirão o mesmo ritual, destacando-se apenas que, a despeito dessas, rogo a cada elemento dessa pequena confraria seja o mais discreto possível. No entanto, nada impede que uma escrita, secreta ou não, seja tão escrota quanto. São, enfim, todas escritas, no que se recomenda muita cautela na hora de rotular o autor similarmente aos seus próprios rótulos. Parafraseando Wilde, não há textos morais ou amorais, apenas bem ou mal escritos. Eis Tudo.

Olhos Vidrados

Grudei meus olhos nos olhos dela. Os meus disseram: te quero; os dela: acho que sim. Ambos se foram. Os meus continuam querendo, os dela continuam achando.

As atônitas alfaces

 

Bem dizia alguém que conheci numa sala de terapia: como é duro ser louco com tanta gente normal por aí! Nem placas com terabytes de memória fazem-nos lembrar que falta pouco, muito pouco pra fazer aquilo que ainda não fizemos. Por exemplo, escrever um livro que venho há muito preparando, o Adultoterapia, que virá em seguida ao Infantoterapia, este ainda em curso. Venho tentando aprimorar meus conhecimentos e técnicas da arte de escrever, coisa que parece difícil, mas, na verdade, é muito difícil, porque você quer ser preciso, usar as palavras certas e nem sempre acha. Muitas vezes ela acha você, assim sem querer. Tenho que ser acurado, pois veja o Saramago, que os deuses o tenham e o valham, que não era homem de um único Deus, que apareceu ao mundo literário já com avançadas primaveras, quando arrebentou como se fosse um rebento de ovo de T-Rex, de idade mesosóica, mas impondo respeito. Recém saído dessa pra melhor, é a hora dos covardes de plantão colocarem-no no Olimpo ou, como alguns jornalistas não mais briosos, descerem-lhe a lenha por ter sido comunista e ateu, em veículos outrora esquerdistas e que ora falam mal deles, só quando o encarnado vira as costas. Coisas de revistinhas futriqueiras. É normal essa coisa da “sede de nomeada” em vida, nas palavras de Machado, mas observa-se que justamente a partir da despedida desse mundo é que o sujeito se imortaliza. Pode escrever que isso vai rolar com o Chico Buarque, por exemplo, que é orgulho nacional, mas que atingirá os píncaros mesmo, emprestando seu nome a centenas de ruas, casas culturais, teatros, etc., só mesmo quando desencarnar (que demore mais cem anos!). Mas isso de escrever não me levará, simples mortal, à gloria. Mas esse caminho trilhado, por si só, já me leva ao infinito prazer pela brincadeira de comunicar. De me transportar a outros mundos escondidos em mim mesmo, à procura de paz. Outra coisa é viajar, conhecer lugares mágicos e também os reais, porque conhecer lugar é tudo de bom. Fazer uma trilha em terrenos inóspitos, mal explorados, tropeçar numa pedra ortográfica, se molhar numa cachoeira de letras, se cansar numa subida infinita de metáforas, e ir descendo, descendo aos mais recônditos verbos verdes e ir diminuindo, diminuindo de tamanho até dar de cara com uma imensa lesma saindo de um caracol, fugir dela (afinal, é uma lesma!), subir num pé de couve e olhar aquela imensidão de grama se mexendo por causa dos movimentos inquietos dos insetos. E saber que mesmo com o vento, os pulgões não desistem de chupar os pés das atônitas alfaces.

 

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