De certo deserto

Imagine um deserto sem mato e sem camelo. Nem mato nem coelho. Pior que mato sem cachorro. Ventos sem dó, finíssimos grãos de areia à cara já assada. Aqui cara jaz. Nem homem que é homem cai e sara. Qualquer saara mata um cara sem mato sem cão. Saara não, mas secura sim. Sol de mil graus, céu anilíssimo, dunas, vento, paisagem monótona, tarada sede. Se de sede morrer virará comida de cobra, lagarto, raposa, escorpião. No lugar do ex-corpo do peão, areia, areia e mais areia. É preciso seguir em frente, se é que se sabe o que é frente e o que é trás. Choóf, choóf, o barulho da bota no banco de areia. Cóf, cóf, cóf, de pó de rocha sedimentar dissolvida. Pé pesado, arfagem, miragem, coragem. Engolida seca, contorção do músculo do pescoço. Boca aberta, alerta à procura de umidade no ar. A vida é já relativa. Areia movediça por redemoinhos em montes nômades à espreita. Mais um passo, choóf, o cara tira uma paçoquinha do bolso. Abre com cuidado para não perdê-la à brisa. A ela misturam-se granizos trazidos pelas forças eólicas que a deixam crocante. Leva à boca seca onde paçoca vira maçaroca. Argamassa semi-sólida de amilase salivar grudada no céu palatino. O sal seca o que faltava...

 

A     s     f     i     x     i     a.

 

Se ainda não foi, tome um copo de água que isso é só um texto que dá sede. É já um homelo (e fechado na sílaba tônica me) – mistura de homem com camelo. Uma agulha no palheiro, um grão no mar arenoso, único no universo. Não é texto de frente e verso, que a ossada não tarda. Há que insistir na cega jornada sem ar, fogo ou terra, que a água já não havia.

 

Nota: em Delfim Moreira, Minas Gerais, nas duas vezes de escalaminhada do Pico dos Marins, no banheiro do bar que ia à noite, a torneira da pia jorrava sem parar. Na primeira vez fechei a torneira pensando: algum bebum esqueceu aberta. Na segunda vez disse ao dono do bar que alguém nunca fechava a torneira. Ele respondeu: - Sou eu que deixo ela aberta. É pra purificar o ar. Retruquei: - assim o senhor está adiantando o dia de acabar a água no mundo! E ele: - Magina, sô, a água aqui de Delfim num vai acabá nunquinha! E assim deu fim na prosa. Aquilo me deixou sequinho da silva. – Me dá mais uma boa de Salinas.

Escritas escrotas II - Totô teimoso

Não sou gagago. Nem totô escrecrevendo assim popor ter es, es, esse proproblema. O problema é a pressa. Pressa é fogo! Reunião daqui a pouco e, se atrasar, é bronca na certa. O grosso do “serviço” já foi feito, mas tem uma sobra renitente, indecisa que, apesar de ser quase certo que é pequena, parece ampliar suas dimensões pela teimosia. Tal qual um cisco no olho que parece ganhar dimensões mastodônticas, o resto do material fecal cutuca a mente persistentemente. Mini bate-estaca intermitente reprimida nas várias horas agás. Não dá mais pra aguardar. Tenho que ir e levar isso comigo. Os chefes esperam. Uma sacudidela na calça, mais pela cisma do que pelo efeito toquístico real. A ponta do toco quase lambendo a roupa de baixo, o que daria um toque glacê-frenagem contrastando com a alvura geral. Mas qual! O compromisso em primeiro lugar. Mesmo com o risco de uma riscada indesejada pelo toque, corro o risco. Riscá-lo da memória é o melhor a fazer. Embrenhado nas discussões da reunião, paulatinamente o toco foi ficando, ficando, até que sumiu por uns minutos, dada a urgência da concentração nos assuntos da empresa. Priorizar necessidades individuais é amadorismo. Profissional que sou, quase me esqueci da excreta (secreta?) reminiscente. Mas as reminiscências são fogo! E o toco ressuscitou. E voltou agulhando o ventre inferior bem no meio de uma explanação do gerente que, não entendendo minha expressão, perguntou se eu discordava de alguma coisa. Disse que não, não discordava e quando ele disse “então ótimo, vamos liberar o que está nos emperrando”, senti um incômodo adicional, a bem dizer descomunal. Já não tinha certeza se sairia dali ileso. Mantive a frieza dentro do possível. E dentro, o impossível toco tocava lá sua sinfonia, infernizando uma mente já abalada por gotas escorregando pela costeleta. Fim da reunião e um tapa sonoro na mesa dada pelo chefe quase precipitou um final trágico. Todos levantaram, menos eu. Fiquei ali, estático, com um sorriso fixo estampado e percebi que todos, em pé e em silêncio, olhavam em minha direção, mas eu olhava fixamente na parede em frente. Dois saíram, mas o chefe não, e sentou de novo mais próximo de mim e me disse: - Sei o quanto será difícil essa tarefa pra você, mas tenho certeza que tem capacidade de se livrar do problema. Se precisar de ajuda, conte comigo. Agora vamos? Claro que não precisava de ajuda. Aproveitando a rápida virada de costas do chefe depois do “vamos?”, levantei-me fazendo uma barreira com a palma da mão esquerda nos diques dos países baixos e, meio saltitando, unindo ao máximo as duas porções glúteas, caminhei por infindáveis 30 metros àquela radiante porta verde. No limite do absurdo, escuto um plóc,  e a vida voltou a sorrir pra mim.

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