Capítulo XIV – As Curvas da Estrada de Santos
Meu pai me salvou! Perguntou o que eu achava de ir a Santos com ele de caminhão. Ninguém vai imaginar o que eu senti. Alguma coisa pulou dentro do meu tórax. O pai disse que ia carregar café até o porto. Faríamos a pequena parte terrestre da longa viagem até o destino final, levando um bocadinho desses frutos que até hoje singram o Atlântico. Do Islã para o Brasil, via europeus, do Brasil para o mundo. Lembra do nosso Barão de Motta Paes? Passamos de produtores a transportadores! 30 anos antes, milhões de sacas do “vinho da Arábia” foram queimadas. Mesmo assim a produção voltou a crescer. Torraram-se e ferveram-se muitos outros silhões de sacas que foram despejadas em bilhões de bules de prata de reis, de porcelana imperial, de estanho de nobres, de vasilhas de pobres que vêm enchendo xilhões de xícaras da tal bebida cheirosa. - Cóf, cóf, fazia eu com o pó da lona que cobria a carga. O cordame subia e descia em zig-zag atado nos ganchos alternados de cada lado da carroceria. Não era fácil subir no estribo da cabine. Era meu pai que me subia até lá. No bancão de mola, minhas pernas de cabrito ficavam balançando e os dois braços ficavam firmes em diagonal para evitar um tombamento. Às vezes ficava de pé com as mãos e o queixo encostado no gelado painel de lata, atento às paisagens e solavancos. Ansioso pela serra que nunca chegava, perguntava por ela a cada cinco minutos. Da passagem por São Paulo tenho vagas lembranças, um vagalhão de paisagens desconexinzentas. Verdes anunciaram nova proximidade de estrada. E o mais importante, a serra. A cada “já tá chegando” a aflição crescia. Começou a serra, disse meu pai, o que deu um arrepio na minha espinha. Logo vamos ver o mar. O mar que eu não sabia, e que neste dia de minhas reminiscências, perdeu seu maior contemplador. Caí-me a perscrutar a menor chance de vê-lo pela primeira vez. Curvas incessantes, mato, montanha e céu. Mas nada dele. Luminescências emanadas de serrações sinuosas numa mistura de boiçucanga e boitatá em plena tarde. Cheiro de lona e chiado de freio. E aí ele veio. Num clarão, um azul. Um enorme céu lá embaixo no chão. Meus olhos, úmidos e vidrados, quedaram no distante deus de Dori. Algumas horas depois, já perto, tive medo. Nuvens e mar cinza, vagas brancas e violentas. O vento molhado regava mais ainda minha alma. Naquele dia não entrei nele, só o vi da areia que ele lambia. Mas ainda me divertiria naquele e em muitos outros mares nunca d´antes desfrutados. Agora é voltar pra fila e pegar a carga de volta, com o peito carregado de emoção do mundo. Mesmo sem saber, devia estar me sentindo como Alexei Leonov que por aqueles mesmos dias foi o primeiro a sentir a sensação de flutuar no espaço aberto. Bem que minha mãe dizia: acorda, você vive no mundo da lua....
Capítulo XIII – Televisão
Bombástica foi a notícia da compra da nossa primeira televisão. Telefunken. Imeeeensa! Foram precisos dois caras fortes para trazê-la até a sala. Era coisa de outro mundo. Tamanho Maracanã, gabinete jacarandá, com seletor de canal com diâmetro de uma rolimã. Ninguém sonharia naquela época com LCD. Mas aquela era a pioneira, coisa moderna. A curiosidade da freguesia aumentava. Foi a notícia da cidade. Uma multidão foi se achegando aos poucos. Os mais ousados punham o pescoço na janela ou ficavam perto da porta, meio tortos, tipo um pé lá, outro cá. Olhos arregalados, lábios apertados. Esse comportamento era, pra mim, mais interessante do que a própria televisão em si. Sabia que ela seria a causa da falta de sossego que se seguiu por muito tempo. Era a Jovem Guarda da Record e Roberto. A Neuza que trabalhava em casa dava gritos estridentes quando via o rapaz da “garota papo firme”. She loves him. Era iê iê iê, um tipo de rock brasílico. Minha mãe, sempre solícita, convidava todo mundo, todo o nosso pequeno mundo pra apreciar os programas que nem bem me lembro. Pensando bem agora, acho que esse carnaval de repente foi a causa de eu não me tornar um beatlemaníaco, como aconteceu com muitos contemporâneos meus. Gente vinha com roupinha de missa cheirando à sabão de cõco, cabelos úmidos. De noite minha mãe tinha que cantar o Calhambeque Bibi, senão o Zé não dormia. Por aqueles tempos um Boeing 707 bateu no Monte Branco entre França e Itália deixando 117 mortos, mas as notícias não eram ao vivo. Os Beatles deram seu último concerto em São Francisco, um mês depois da instauração da ditadura militar na Argentina. Creiam, foi nesse tempo que criaram To Sir With Love. Eu voava com meu aviãozinho vermelho de plástico. Tanta gente na sala vendo a Wanderléa! Eu ainda preferia as curvas da Estrada de Santos a ver TV.
Capítulo XII – O mundo ainda não fede, só cheira
Não foi o medo da noite. A demora é resultado da falta de hora. Fazer hora é coisa de desocupado. Cada coisa que a gente inventa! A ansiedade na infância é maior do que na anciã idade. Graças aos bons anjos, no dia seguinte de manhã, depois daquela noite braba, meu pai pegou a gente de volta pra casa. Deixamos o quarto, o pomar, os enigmáticos e negros porões, o sótão, a máquina de arroz e a sineta do portão de ferro. Que pena! Ah, o mistério! Essa coisa tão importante aos curumins e desdenhada pelos caciques brancos. A cabine do caminhão era sempre uma festa a parte. O Chevrolet Brasil, com seus pára-lamas verdes e o resto da lataria branca, dava pulos compassados com o barulho do motor e as mudanças de marcha. Sua altura descomunal em relação à rua dava certo orgulho aos pequenos viajantes. Lembro do cheiro de café-lona-cordame da carroceria. Tinha saudades do Duque, das brincadeiras, do aroma matutino do nosso mato, da minha cama batuta. Mas também já sentia saudades dos cheiros da casa da vó que me lembro até hoje. Se fosse capaz, decifrá-los-ia aqui. Quem sabe alguma vez eu possa. Lembro de uma fragrância mofidoce. Chego a respirar mais fundo quando me lembro dele. Mas essa palavra não significa nada pra você, nem pra ninguém além de mim. Nem tente decifrá-la. Poupo-o de procurá-la no dicionário. Ela não existe a não ser na minha memória única, assim como todos têm as suas únicas memórias. Saída de Pinhal, estrada, olarias, chaminés, cemitério, chegada a Sto. A. do Jardim. Diminuí o santo, mas deixei o que importa. Aliás, entre nós, dizíamos só Jardim. Da rua principal, antes da esquina do antigo cinema, viramos à direita e estávamos no topo da descida de onde avistávamos a nossa casa. Nem mesmo começamos a descer e o Duque já desembestou em nossa direção. Aos cães não interessa se vamos ou não até ele. Importa mais o prêmio de chegar até nós. Olhos estalados, língua de fora, latidos insistentes e, depois de uma derrapada espetacular na terra, desceu seguindo o caminhão. Olás e vivas e aqui estamos de volta. Enquanto o Brasil rompia relações diplomáticas com Cuba, abandonávamos o Chevrolet Brasil e reconquistávamos nossas posições de meninos do Jardim. E as fétidas bombas americanas caíam em Hanói. Nessa mesma época Thái, um vietnamitazinho horrorizado com a guerra ainda não sabia que anos depois fugiria em um navio pesqueiro, seria resgatado por um navio da Petrobrás e teria asilo no Brasil. Depois de muita luta aqui, fundaria a Goóc. Fui dormir à meia-noite num dia próximo à fundação do Jornal Zero Hora de Porto Alegre. Também fundava-se a Organização para Libertação da Palestina – OLP. Nesse bombástico mundo, mesmo sem saber, minha vida estava prestes a mudar radicalmente.
Capítulo XI – Noite Braba II
De tanto porão, pomar, esconde-esconde, rampa, pega-pega, brigas, risos e choros, fomos cedo pra cama. No dia seguinte voltaríamos pra nossa Santo Antônio do Jardim. Que os anjos digam amém. Nesta noite dormiríamos os três no mesmo quarto. Dormiríamos é por que uma série de acontecimentos nos impediu. Primeiro acordei lá pelas duas da manhã com o João me cutucando: Beto, Beto, você ouviu esse barulho? Disse pra ele que eu estava dormindo, esfregando os olhos, e logo a seguir, ouvi sons que pareciam ser passos no interior da casa. Até aí, tudo bem, alguém deveria estar se dirigindo à cozinha para beber água ou ao banheiro, sei lá. Mas o fato intrigante era que não havia luzes acesas. Bom, pode ser que a pessoa, tipo o vô ou a vó, soubesse o caminho de cor e não precisasse de luz. Mas os passos eram compassados demais para alguém que se dirigisse a um objetivo definido. Às vezes o ruído interrompia-se para dar lugar a outros, como se a misteriosa pessoa estivesse vasculhando objetos. Barulho de papel se amassando, outras vezes sons metálicos. Criamos coragem e acendemos a luz do quarto pela “pêra” dependurada por um fio na cabeceira da grande cama. Por que uma coisa eu digo: se precisasse levantar pra acender a luz, acho que ninguém iria. O Zé fazia caras e bocas, às vezes com medo, às vezes meio divertido. Mas nós que já éramos mais velhos, ou menos novos, estávamos arrepiados da cabeça aos pés. Por falar em pés, os passos aumentavam de intensidade e o som surdo de botina no assoalho chegava até nossos ouvidos com mais intensidade. Lembrei daquela noite da raposa, mas dessa vez não era bicho. Era gente sim. Por incrível que possa parecer, me consolei pelo fato de, desta vez, estar com meus manos do lado, a esta altura, uns agarrados nos outros. A cada passo, um aperto a mais e mais cabelos arrepiados e sussurros muito contidos pra não alertar o dono dos movimentos do outro lado do quarto. Como no episódio da raposa, os estalidos daquele caminhar aumentavam de intensidade e pareciam crescer justamente em nossa direção. O João disse baixinho: está perto do relógio da sala. Nesse instante o badalo ecoou bééémmmm. 02h30 em ponto. Só quando o último zunido esticado do relógio sumiu definitivamente, os passos reiniciaram sua jornada. Expectativa e apreensão tomaram conta de nossos cérebros perturbados. Tivemos, todos juntos, a exata impressão do momento em que aqueles pés pararam bem na entrada do escritório ao lado. Os pelos do corpo se eriçaram. Mais uns quatro ou cinco passos e seja-lá-quem-fosse estava bem diante da porta do quarto. Cochichei que deveríamos fechá-la com chave. Mas não houve meio de alguém levantar. Quietude total por uns cinco minutos. Respirações difíceis. O João, tomado de subida coragem e pavor disse alto: se tem alguém aí, fale quem é e o que quer. De repente, o silêncio matador se rompeu e a maçaneta se mexeu. Girou Va ga ro sa men te. A porta, rangendo as dobradiças, foi se abrindo muito lentamente. Atrás da porta, a escuridão. Perplexos, ficamos grudados uns nos outros por instantes. Novamente, no limite do insuportável, o João soltou a voz: Quem está aí, diga o que quer, nós estamos com medo. E todos desandaram a chorar. Súbito, a porta se fechou tal qual fora aberta, com o movimento completo da maçaneta. O terror imobilizou a todos. Muito tempo se passou sem mais nada. O amanhecer já não se fazia distante. Quando alguém, por puro cansaço ia fechando os olhos, outro cutucava para ficar atento. Assim ficamos até os primeiros claros do dia, quando escutamos passos reconhecidos. Era da vó e da Tia Leonor que madrugavam todos os dias. De pé, corremos ao encontro delas e narramos quase juntos a desvairada história. Calma, calma, seus negrinhos, um de cada vez. O João contou tudo, ainda muito agitado e eu confirmava com a cabeça. O Zé ainda não sabia bem o que tinha se passado. A vó, calma como sempre, disse que tínhamos sonhado. Que tínhamos comido muito mingau e tal e coisa. O Zé, não sei, mas até hoje o João e eu lembramos do caso como se fosse hoje e ainda sentimos lampejos de arrepio. O que se passou, não sabemos, mas não foi sonho não senhor!
Capítulo X – Rampa, porão e mingau
Depois da overdose frutífera tivemos que nos lavar meio assim, banho de gato, pra tirar o excesso de delícias sujas nos rostos, mãos e braços. Feito isso, fomos até o lado oposto da avenida, que de avenida só tinha o nome. O movimento era pouco. Lá havia uma rampa de cimento rústico que seguia a geometria de outra rua que bifurcava em subida. Gostávamos de pular da parte mais alta da rampa até a calçada da avenida, o que proporcionava um ou outro joelho invariavelmente lesionado. A altura, naquela memória infantil, era de uns três metros. Aposto que, se ela ainda existir, não deve passar de dois. Haja mercúrio cromo. A transição entre a vida e a morte é uma das muitas atribuições do deus romano Mercúrio. Mitologia à parte, o fato é que rolávamos na rampa e ralávamos peles de dedos, pernas e costas sem dó, feito queijo no ralador. E a dor só aparecia bem depois, à noite, para sumir de vez no outro dia. Certa hora batia um sol que costumava me dar uma preguiça gostosa e quando o calor incidia insistentemente no cimento, chegava a queimar as partes detrás das coxas. Hora de ir ao porão da casa da vó. Aquele lugar, apesar de bem organizado e limpo era, como qualquer congênere, tenebroso. Mistura de masmorra e Café Bizarre sem néon. Meio soul, blues inteiro. A meia-luz que existia, só existia por causa dos fachos que vinham de fora e passavam pelas fissuras das portas. Nunca alcançávamos as borboletas dos soquetes que acendiam as lâmpadas do teto, apesar deste ser relativamente baixo. A cada divisão ou pequenos cômodos que penetrávamos, mais escassa ficava a claridade. E quanto mais a escuridão aumentava e mais titubeantes ficavam as sombras, mais elas apareciam na imaginação. Naquele ambiente era impossível delinear os objetos e o negrume se intensificava na razão direta da melancolia. Lembro disso com muita clareza. Sempre tinha um engraçadinho, inclusive eu, que fazia um barulho simulado para amedrontar os outros. Buuuuuu. Ou alguém gritava - Um bicho! E era motivo pra correrias doidas naquele breu. Nessa hora batíamos em objetos ignorados, no chão ou dependurados, mas que estimulavam ainda mais a imaginação, já à flor da pele. Nessas horas quebravam-se coisas, desarrumavam-se outras, o que sempre era motivo de repreensões ou castigos. Um dia achamos um baú velho que incitou nossas fantasias por muitos dias. Só se falava nele e quando, tomados de coragem, perguntamos o que continha nele, a vó o abriu silenciosamente. Quando já ia avistando objetos dourado-metálico-brilhantes, apareceram só algumas roupas velhas que cheiravam a porão. Talvez a húngara Christa Paffgen as usasse. Ninguém perguntou o motivo de elas estarem ali, mas isso passou a ser o nosso novo mistério. O bom daquele porão é que ele tinha partes sempre obscuras que permaneceriam assim até hoje, se ele ainda existisse. À tardinha subimos para os mimos de pais e avós. Vó Nair preparava um mingau de aveia, que o vô João chamava de mingau da véia e dizia que era preparado com aveia quarqué. Até hoje, o mingau que eu preparo é o que mais se parece com o daqueles tempos, descontando-se a qualidade do leite e da aveia. Compensa-se a raleza dos ingredientes com mais flocos. O açúcar ainda é o mesmo, para qualquer tipo de formiga.
Capítulo IX – Manga, leite e laranja
E com a luz do dia vem a vontade de farrear! E a vó nos pediu para ir lá na venda do Agostinho pegar uma bengala de pão e uma vasilha de leite. Naquele tempo, quem tinha nome eram os donos da venda. A venda mesmo, não tinha. No café da manhã, todos comentaram o ocorrido na noite. Riram mais um pouco da minha cara, mas tenho certeza até hoje, de que mesmo gente grande suaria um bom bocado. A vó disse que só por isso faria um doce de leite. E era sui generis o que ela fazia! Insánus lácteo. Ficava com aquela casquinha mais dura por fora e uma massa bem molinha por dentro. Ela cortava toda a forma em muitos pedaços em forma de losangos. Meus olhos brilhavam só de lembrar deles. A manteiga que passávamos no pão, fazia-se em casa mesmo. Lembro de minha mãe batendo nata por horas numa vasilha de vidro, até ela se transformar na mais pura manteiga. Nato nóbilis. Haja muque! Café tomado e, finalmente, estamos dispensados. Antes de sair, minha vó, com o indicador em riste, dizia: - Ói, escuta aqui seus levados, se vocês forem no pomar, podem aproveitar bem a época de manga e de laranja. Mas tomem cuidado pra não caírem das árvores, nem se cortarem, que eu não vou sair acudindo ocês, hein, bão! E lá íamos apostando corrida escada abaixo. As mangas estavam despencando de maduras, portanto, nem precisávamos subir nas árvores. Subíamos por que éramos crianças. Pele de moça, comum, rosa, espada, coquinho. Esses eram alguns tipos de manga que tinha no pomar e que ainda me lembro. Mas tinha mais de 50! Acha exagero? Também acho, mas no Brasil, temos mais de 500 tipos da mais verde e amarela das frutas. Lembro-me bem da manga coquinho. Não me lembro de tê-la visto depois de eu crescer. Ela era pequena, como revela o nome no diminutivo. Seu sabor e “buquê” eram únicos. Sempre doce, tinha fiapos suficientes pra preencher os espaços entre os dentes. Não é difícil imaginar três pirralhos se lambuzando de manga. Manga com leite, jamais, que dá dor de barriga. Folclores do interior. Acho que o que dá dor de barriga é chupar um montão de manga e depois arrematar um copo de leite. Se isso não gerar peristaltismo, nada mais vai gerar. Era uma amarelidão só! A pele de moça não tinha fiapo e era perfumada. Nome todo mimético. Mangas chupadas, verificamos as laranjas disponíveis na época: seleta, lima, Bahia, ou pêra? Péra aí, vou na lima que é mais doce. O doce de cidra parecia uma gelatina grossa e natural, açucarada artificialmente e com cravos. Estes também condimentavam o doce de batata-doce. Tem doce mais doce que o doce de batata-doce? Chego a sentir sede! Enquanto corríamos pelo pomar, um ex-membro da Ku Klux Klan, o então policial James Ford Seale, assassinou dois negros no Mississippi. Os dois jovens negros de 19 anos foram espancados e amarrados em objetos pesados e jogados no rio de mesmo nome. Só agora, em junho de 2007, aos 71 anos, Seale foi condenado. Eu estava condenado a me fartar de nectarina e minha vó mandou um casal de negros pobres entrarem e colherem as frutas que quisessem. Ajudamos no que pudemos e eles saíram felicíssimos. Ela sempre dizia que só ajudava as pessoas boas, que de ruindade já bastava a dela. E eu ficava matutando: como saber quem é bom e quem é ruim?
Capítulo VIII – Noite braba
Nesse quarto havia uma cama de casal, de modos que ficaram lá o João e o Zé. Naquele dia eu dormi no escritório, onde também tinha uma espécie de sofá-cama. Quando todos foram dormir e as luzes foram apagadas, não ficou um breu total por que a janela do cômodo não tinha cortina e as luzes vindas da rua invadiam o recinto em diagonal, transformando os quadrados de vidro em losangos claros estampados na parede, na parte de cima. Estava um pouco frio, mas nada que justificasse a grossura do cobertor que me deram. Não pegava no sono de jeito nenhum. Ouvia o constante farfalhar da copa da enorme mangueira do quintal que fazia com que as sombras se movimentassem desvairada e constantemente. Às vezes, um silêncio suspenso no ar. Vez ou outra, longe dali, um ranger de assoalho. Longe não, longíssimo e baixo, mas nítido. Madrugada adentro e nada. Sentia um certo suorzinho incômodo. Foi aí que comecei a ouvir algo que destoava dos outros sons. Defini-lo aqui com precisão é quase impossível. Dilatou-me o ouvido. Toda atenção era pouca. Lembro que minha respiração mudou de ritmo. Arfava! Percebi que o ruído aumentava gradativamente de intensidade. Engoli sem saliva. Tive a impressão de que era algo que se movia em minha direção. Meus pelos se eriçaram. Parecia que eram cascos de cão que raspava o chão. Não tinha mais ar. E o som aumentava em minha direção. Parecia que estava na grande sala ao lado, se aproximando. Não me atrevi a olhar para a porta. Continuei imóvel, incapaz de qualquer movimento, já molhado de suor. E os cascos agora pareciam garras. O som já é bem próximo, nítido. Não parava de raspar – réc, réc, réc. Tentava falar, mas não conseguia. Tentava gritar, mas só conseguia ficar com a boca aberta, emitindo um assovio débil em a. Percebi que aquele rumor que punha fora meu coração adentrou ao escritório, agora bem alto e claro. Réc, réc, réc. Apertava o cobertor entre os dentes até que tive a sensação de que o som do outro mundo chegou aos meus pés. Imaginei uma fera descomunal agarrando minhas pernas. A impotência das minhas cordas vocais se transformou num berro dos infernos. Aaaaaaaaaahhhh. Luzes se acendiam por toda a casa. Pais, avós chegavam evocando Nossa Senhora. Que estava acontecendo? Você sonhou, meu filho? Graças a Deus estava salvo. Depois da água com açúcar, narrei, ainda aos soluços, tudo o que acontecera. Minha vó, doce e calmamente explicou tudo. Era a raposa. Ra ppp posa?, gaguejei. Essa danada veio assustar o negrinho da vó – era assim que ela nos chamava. É que ela fica perambulando à noite no sótão e até parece mesmo que ela está dentro de casa, mas ela nunca entraria aqui por que ela tem mais medo da gente do que a gente dela. Eu tinha lá minhas dúvidas. Mais medo do que eu passei, era morte garantida. A tia Leonor disse que essas safadas sempre aparecem lá na clarabóia do quarto. - Elas ficam olhando pra mim e eu fico olhando pra elas, mas sei que dali elas não passam - dizia. Agora todos riam. Eu era só um riso amarelo. Eu, hein? Posso dormir com o João e o Zé? Eles também estavam com olhos arregalados, mas nessas horas, melhor três do que eu sozinho de novo. O vô João disse pra eu não me preocupar que amanhã ia pegar essas vadias. Dizia: sabe como eu caço raposa? Ponho cachaça, que elas gostam, numa vasilha. Elas bebem até ficar cambaleando. Aí é só dar um tirico de garrucha na nuca delas e babau! Adeus raposa, falou esticando os braços e rindo. Só fui dormir quando amanheceu. Não faz muito tempo me disseram que essa história de matar raposa com cachaça é velha. Quem bebe mesmo é o matador. Nada como a luz do dia.
Capítulo VII – Casa da Vó Nair
Hora de se arrumar para ir pra vó! Chegou a hora. Urras e vivas. Banho no chuveiro, ardume de um raspão na perna. Todos perfumados, roupas de missa. O ônibus vai chegar logo, estamos atrasados. Olha lá ele, já apareceu no trevo, debaixo daquele poeirão. Da janela do quarto, onde a vista passava pela depressão do ribeirão, pelo matadouro e subia uma rampa bem inclinada, via-se o trevo. Vamo, meninada! O motorista punha todos acima dos degraus. Íamos quatro em dois bancos. O mundo passava pela janela. A paisagem, quanto mais afunilava, mais demorava pra passar. Bois, árvores, campos, cavalos, estradas. Lá longe, a fumaça na chaminé da casa. Chegamos na rodoviária. A casa da vó era na Av. Barão de Motta Paes. Esse Motta aí é o mesmo meu. Um antepassado rico, barão de café. Veio o crack da Bolsa de Nova Iorque. Queimaram tudo. O crack queimou o café. Droga! Ficamos pobres. Mas ainda sou tatataraneto de barão. Dizem que a família chegou a ser sócia da Usina Belgo-mineira. Mas deixou de ser por causa da queima. Essa quebra não podia ter sido em 2029? Estaria eu com 69. Um Vat legítimo! Ficar pobre nessa idade é pior. Melhor ter nascido pobre. Voltemos à casa da vó. Era grande, bem grande. O portão com grades de ferro tinha uma sineta, cujos badalos anunciavam os momentos extraordinários pelos quais iríamos passar. Do lado esquerdo de quem entra, passando pelo quintal da frente, tinha a máquina de arroz do vô. Era uma barulheira sem fim. Gostava de comer quirela, que era comida pra dar às galinhas. Os pequenos arrozes debulhados pulavam e dançavam nas esteiras da máquina. O cheiro bom daquele lugar ainda me vem à memória. Sacas de estopa de sessenta quilos eram recheadas de arroz, uma após outra. Vô João Tito não gostava muito que ficássemos por perto. Então, depois da bença, despencávamos rumo ao pomar. Nananinanão! Antes, vamos dar bença pra vó e pra tia Leonor. A tia Leonor era irmã da vó e tinha uma verruga preta de mais de meio centímetro no canto do olho, acho que do direito. Se alguém souber, me diga. Quase nunca falava com os outros. Passava o dia cantando e falando baixinho com ela mesma. Diziam que nunca nem namorou e morou até a morte com a irmã. Entrava-se na casa pelo escritório pegado ao quarto da frente. Entrando mais, chegava-se à sala enorme e pouco mobiliada. Dela acessava-se o quarto da tia Leonor, a cozinha, o banheiro, o corredor que levava ao quarto dos avós e a saída da escada que ia dar no terraço cimentado e murado, onde tinha o forno de barro que nunca vi ser usado e a entrada para o porão. Ah, o porão! Aí começava nosso campo de atuação. Ele ligava o terraço ao fundo do quintal que, finalmente, levava ao pomar. Para completar a arquitetura da casa, o assoalho era de ripas de madeiras inteiriças que rangiam ao pisar num ou noutro lugar. Barulhos de casa velha. Toda a casa tinha um forro bem alto feito de finas ripas de madeira pintadas de verde. No teto do quarto da tia Leonor tinha uma clarabóia tapada com vidro. Lembro do telefone preto do escritório do vô, com duas peças afuniladas, ligadas por uma corda. Uma para falar, com uma base de apoio e outra para escutar que se apoiava no ouvido com a ajuda da mão em forma de concha. Muitos já viram um desse em filmes e novelas de época. Aquela casa era um celeiro imagético para qualquer criança. A vó nos arrastou à cozinha para degustar o figo em caldas que só ela sabia fazer. Era uma calda realmente espessa e dulcíssima, preparada especialmente para netos. Lambuzamo-nos à beça e aí ficou tarde e anoiteceu. Tivemos que adiar as travessuras para o dia seguinte. Dormíamos no quarto da frente, ao lado do escritório, aos sons da nossa avenida, a Barão de Motta Paes.
Capítulo VI – Galinhas, vacas de bucha e açudes
Antes de tudo, um parênteses. O João me lembrou que às vezes também pescávamos cascudo com peneiras em pequenas quedas d´água no nosso riozinho. Outra observação é que o riozinho era grande pra minha cabeça de criança. Maior que o rio Paraguai, que ainda não conhecia. Os lambaris eram troféus maiores que o jaú de 15 quilos que pesquei no Pantanal. Quem duvidar que vá até minha mesa no trabalho ver a foto estampada num porta-retratos. Vê-lo é altamente desestressante. Quando a gente é pequeno, tudo é grande. À medida que a gente vai crescendo, as coisas vão diminuindo de tamanho e de importância. O texto é justificado, mas nem sempre os meios justificam os fins. Jamais o gesto toma o lugar da letra. Tinha então quatro anos e ficava horas no quintal observando as galinhas alvoroçadas atrás dos grãos de milho que eu atirava. Pi pi pi pi pi! Pi pi pi pi pi! E tinha arranca-rabos, bicadas, e penas no ar. E eu ria tanto que nem os bichos ligavam mais. Gostava do alvoroço no galinheiro quando entrava para retirar os ovos. Quem veio primeiro? Veio alguém gritando no quintal; - “amanhã vamos pra casa da vó”. Eh! Alegria geral, mas logo esquecíamos. Afinal, era só amanhã. E os amanhãs para nós eram muito distantes. Então vamos correr que o tempo passa mais depressa! Todo mundo pra cerca pegar buchas verdes. Fui escalado pra roubar uma caixa de fósforo. Pula degrau, sobe cimento, vira rampa, um impulso a mais, devagar na porta, um só olho próximo ao batente, sozinho na cozinha, vupt! Peguei, peguei! Quanta bucha! Todo mundo fazendo vaca de bucha. Pés, rabo e chifres – era essa a minha seqüência – e os mini-bovinos estavam lá mugindo até. A cerca era pouca. Só o que dava com os palitos. Sai, Duque. Sumiu no milharal do vizinho. Chegaram uns amigos do tio Dado. Acho que vão pro açude que era um objeto de desejo dos pirralhos. Na verdade, acho que eram açudes. O Dado dizia que era perigoso e então só podia levar um de cada vez. Eram fundos e concretados, fincados no meio de um bosque. Água muito fria com finas peles de musgo boiando. Camada de ar leitoso logo acima da tona. Tenebroso e bucólico. O barco deslizava lento e formava um grande risco em “v” que ia aumentando até encostar nas bordas. Sons de bicho nem sempre ouvidos. Todos os poros abertos. Verdes múltiplos. Naquele momento, jatos amarelos de napalm eram lançados nas palmas dos matos vietnamitas. Delineavam uma bandeira do Brasil com as cores e os dizeres invertidos. Arco-íris e a palma da mão aparando o sol. Som da pá do remo n´água. Vitórias-régias. Um dia um dos meninos grandes jogou o remo no meio do açude. O Dado obrigou que ele fosse buscar a nado. Foi e voltou sem parar de rir. Eu que não entrava ali nunquinha. A água era um gelo. O primeiro homem que foi pro espaço era um russo. Falava-se que as mulheres não queriam mais usar sutiãs.
Capítulo V - Ruas, quintais e jogos (Parte 1)
Pensou que depois disso seria só quietude? Não senhor. Forças recobradas, brincadeiras na rua. Pega-pega, esconde-esconde, bate-lata, boi-laranja. Corrida, patinete, queimada, pique. E vamos atrair vaga-lumes!
Vaga-lume tem-tem, seu pai tá aqui, sua mãe tamém.
Pensava comigo: como pode um bicho desse viver acendendo e apagando a bunda sem parar?
Como pode um peixe vivo
Viver fora d´água fria?
Como poderei viver
Como poderei viver
Sem a sua, sem a sua
Sem a sua companhia
Lembro de outro hit pirilampístico:
Você pensa que sabe muito,
Vaga-lume sabe mais.
Vaga-lume acende a bunda,
Coisa que você não faz!
Capítulo V - Ruas, quintais e jogos (Parte 2)
Entre um lume e outro, um beliscão na coleguinha. Não pra doer muito, só pra ver seu sorriso maroto e sua ira mal disfarçada, o que gerava um pega-pega extra. No topo da rua chegavam dois fachos de luz que ofuscavam os vaga-lumes. Seria meu pai chegando de viagem no Chevrolet Brasil? Meu vô, na sua camioneta Rural Willys? Nem um nem outro. Corria no quarto e pegava meus carrinhos de plástico, madeira, ferro e me admirava como eram tão parecidos com os de verdade. Só bem mais tarde fui saber que um certo JK tinha muito a ver com isso. Barulho lá fora. O Maçã estava chegando com seu enorme jacá colorido na cabeça, com dois chifres de boi bem pontudos, correndo e urrando atrás das crianças que, mesmo sabendo da brincadeira, faziam caras de puro horror.
Pai Francisco entrou na roda
Tocando o seu violão
Bi-rim-bão-bão-bão, Bi-rim-bão-bão-bão!
Vem de lá Seu Delegado
E Pai Francisco foi pra prisão.
Como ele vem todo requebrado
Parece um boneco desengonçado.
Quando reina o silencio, vem o mormaço da noite de primavera e a chuva de aleluias dos cupinzeiros. Içás ou sarassarás, ou siriris, dependendo da vontade do freguês, são espetados pelas bundas que não acendem, mas vazam e zoam e zunem uma zoada só. Tem gente que come essas bundinhas assadas. Depois de muito reinar, hora do último banho, agora quente, do lado de dentro da casa. Pijama de flanela, bença e tchau.
Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega essa criança
Que tem medo de careta.
Também pausavam os pensamentos de Jean-Paul Sartre, as tintas de Anita Malfatti, as letras de Cecília Meireles. Calavam-se os intelectuais. Martin Luther King ganhava o Prêmio Nobel da Paz. E eu sonhava com o futuro
Capítulo IV - Velha, formiga e banho
Tinha uma velhinha bem mais simpática do que o japa do caqui, que sempre ia em casa com uma grande cesta forrada de frutas silvestres – pitanga, jatobá, jaboticaba, uva japonesa, amoras graúdas, romã, nêspera, tamarindo, etc. Era pobre, falava baixinho e bem pouco. Tinha o rosto todo enrugado e morava bem longe, na roça. Sempre que ia à cidade, fazia uma visita, deixava a cesta que me alegrava um bocado e minha mãe servia a ela um lanche e dava alguns víveres, como arroz, feijão, açúcar, fubá. É fácil perceber que nunca faltava o que fazer naquele mundo. Um dia caí do muro e não sabia que mais alguém tinha caído: era João Goulart, no 31 de março. Eu era observador. As formigas me atraíam especialmente. Roubava um bocadinho de açúcar da dispensa e fazia pequenos rastros para observar toda a movimentação próxima ao formigueiro. A movimentação era de exército. A primeira que encontrava um micro-torrão ficava visivelmente agitada e vasculhava toda a área. Logo depois corria para avisar suas companheiras que elegiam um pequeno grupo que excursionava ao redor do achado. Sem perda de tempo, parece que davam o alarme e um formigame ia para lá. Rapidamente a valiosa descoberta estava viajando nas infinitas galerias subterrâneas até o quartel-general do formigueiro. Acho que eu me parecia com elas, sempre me chamavam de formiga. Por que será? Pouco antes de anoitecer o banho era dado de mangueira no quintal ou no tanque, dependendo do estado das felizes crianças. Isso também era motivo de muita farra e confusão. O Duque, vez ou outra, também tomava banho no tanque com pedra de anil, para o pelo ficar bem branquinho. Afinal, era um canzarrão vira-lata bem peludo e vaidoso. Por outro lado, segurá-lo no tanque todo ensaboado e molhado era tarefa pra gente grande. Às vezes escapava e corria pra terra se esfregar. Acho que só as ameaças e insultos que meus pais faziam eram capazes de aquietar a fera e terminar o serviço. Depois era amarrá-lo, ainda no chão de cimento, perto do fogão à lenha até a secagem, quando dava aquela tradicional chacoalhada canina que lança milhões de pingos d´água a metros de distância como se livrasse de milhares de pulgas. Quem olhava para a cena, de longe, sério, mas com um risinho de canto era o Mis, nosso gato que mais parecia uma jaguatirica, tal seu tamanho e semblante selvagem. Acho que ele pensava: eu é que não passo por esse mico que sei me lavar sozinho. De minha parte gostava da sensação pós-banho depois de um dia daqueles. Dava um tom reconfortante ao corpo judiado de tanto subir, escalar e descer; rolar, correr, pendurar; ralar, bater e escorregar. Agora um pãozinho com café quentinho, esquentado na chapa do fogão à lenha, onde se sente o calor e se vê o neon do fogo e os estalidos da lenha que reclama da cremação. Na cozinha tinha fogão a gás, que era o mais usado, mas aquele outro era mais rústico e mais romântico, se é que gente pequena pensa nessas coisas. Imaginem que começavam as primeiras discussões sobre direitos civis, lá nos States.
Capítulo III - Goiabada cascão, lambari, pneu e caqui
A parte difícil é fazer a goiabada. Lavar, descascar, colocando as frutas em grandes bacias, onde serão açucaradas para ferver por muito, muito tempo. A espera é difícil, mas recompensadora. Nem deu tempo de esfriar e já estou lambendo colheres e passando a pasta casquenta e quente no pão. Quando tem um queijinho, então, sai debaixo. Era uma satisfação não sem uma forçosa e necessária visita, a posteriori, a certa dependência da casa. Naquela hora, se eu fosse maior, estaria pensando nos vietnamitas atônitos de olhos fixados no céu, assombrados por ver tantos bombardeiros vomitando suas carreiras de projéteis explodindo os campos de arroz. Eram anos in crisis. Nem só de doce e frutas vivia eu. Pescava-se. O índice de indeterminação do sujeito justifica-se, já que também não era bom pescador, lembro-me bem. Mas, assim como hoje, venerava pescaria e peixe. O ribeirão ficava no vale seguindo a direção dos fundos do quintal que, nas medidas superlativas das lembranças infantis, não passava de um quilômetro. A pescaria mais corriqueira era a de lambari, que recheava o ribeirão. Pra variar, de vez em quando um bagrezinho aqui, outro ali. E olha que se pescava com vara, hein? Nada de tarrafa. Alguém aí já comeu lambari frito fresquinho? Até hoje quando vou ao interior, sempre saio “à caça” desse peixinho para degustá-lo com cerveja. Se eu não pescava, por um lado, de outro me aventurava nas refrescantes correntezazinhas do pequeno rio, não sem fantasiar perigos ocultos sob a água barrenta, como jacarés ou cobras gigantes que viriam a qualquer momento do mundo subaquático para devorar criancinhas. Os medos fantásticos agravavam-se pelas súbitas passagens de galhos e afins que roçavam pés, pernas e barriga. Mas como o Duque sempre nos acompanhava na empreitada, ficava tranqüilo como um rei. Antes de chegar ao rio, tinha um sítio de uns japoneses que não me lembro do nome. Um dia, brincando no quintal com um pneu velho dianteiro de um trator, descuidei e o brinquedo rodante desviou, escapou e foi ganhando velocidade, mais e mais. Fiquei atônito quando ele atropelou a cerca de bambu que já não estava lá essas coisas, derrubando-a, continuou descendo e descendo com mais força no declive cada vez mais íngreme, até fazer uma comprida fileira de caquis amassados no meio da plantação do japonês e parar no ribeirão. Aquele monte de borracha parecia estar endemoniado. Pensei que seria meu fim, mas levei só um puxão de orelha, daqueles que esquentam pra valer e logo passam. Preocupou-me mais o pneu machucar os lambaris. O japa fulo da vida que tinha cara de caqui, que sabia que os peixinhos são mais espertos do que eu achava, falou um bocado de coisas que eu não entendi olhando pra mim com os olhos abertos como nunca os havia visto. Nem precisava entender o japonês, ele estava era brabo! O certo é que, daquele dia em diante, caqui só comprando. Naquele ano, de farta colheita, nasciam Patrícia Pilar, Sandra Bullock, Mats Wilander e João Gordo, provavelmente próximo a um porão cheio de ratos. Lou Reed e Andy Warhol lançavam o primeiro disco do Velvet Underground com uma banana na capa.
Capítulo II – Estouro de boiada
Mordida de formiga, riscos de plantas espinhentas na pele, picada de mutuca, aranha e cobra, nada me dava medo. Nada vírgula, quase me borrava quando encontrava o Dito Mudinho, que era um preto velho que não fazia mal nem pra uma tanajura, mas que me arrepiava de medo. Tinha um chapéu-panamá muito velho e surrado que tapava metade do rosto enrugado. Era manco e babava mais que um cão e, lógico, era mudo. Só proferia vogais nasalizadas junto com gestos lentos e débeis. Depois, quando cresci, troquei o medo dele por dó. E é só. Um dia, vendo-o no mato, corri muito, à toa (ele nunca corria) até me deparar com um pé de uvas japonesas madurinhas, madurinhas. Adeus Dito Mudinho. Fiquei o resto da tarde trepado naquele pé, me fartando de pura glicose. Quando desci, comichoso, abrigando no corpo uns bichinhos miúdos a mais, o sol já queria se despedir, mas tinha tanta felicidade dentro de mim, que não tinha Dito Mudinho, nem Dito nenhum que eu não pudesse enfrentar. Então fica o dito pelo não dito. Certas frutas eram os eskibons do mato. Sorvê-las frescas era uma dádiva divina da vida. Quem já não ficou horas com um canivete afiado debaixo de um pé de laranja doce, lima ou não? Porque quando a laranja não é lima, mas é doce, é néctar só! Era pequeno, mas – contradição – era uma abelha gigante. Minha mãe desde aquela época é uma quituteira de mão cheia. Ela lembra até hoje da minha cara paciente, mas ansiosa, esperando para raspar a colher e o tacho dos doces de abóbora, de cidra, de figo, de banana, de goiaba, de leite, pudins, manjares, arroz-doce, mingaus e mais outros, com o nariz entre os oito dedos apoiados na pia. O doce mais difícil e divertido de fazer era a goiabada. Divertido, porque goiaba grande e madura, a gente só achava lá pelas bandas da fazenda do Migué Namén. Hoje acho que era Miguel, mas na época era Migué, mesmo. O lugar era longe pra chuchu. Íamos em bando, que consistia do meu tio Dado, que era o líder e na época devia ter lá os seus doze anos. Depois o João com cinco, eu com quatro e o Zé, ainda com dois aninhos, cambaleando pelo mato e trilhas. Ainda não tinha o Marquinhos que, temporão, nasceu muitos anos depois. Dávamos uma de Migué e íamos todos felizes da vida, cada qual com seu bornal proporcional ao seu tamanho, pra agüentar trazê-los cheios de goiaba. O Zé, que ria o tempo todo de felicidade, mal se sustentava de pé e os outros tinham que ajudá-lo a se equilibrar com seu saquinho que levava três ou quatro frutas. Um tropeço aqui, um tombinho lá e quando parecia que ia irromper o choro, este se misturava com um novo riso. Valente, levantava e voltava à feliz labuta. Lembro de um dia que perdemos metade da colheita, vítima de um estouro de boi. Por pouco minha mãe também não perde metade da prole. Com a aproximação repentina do bloco de bichos esbravejados, só deu tempo de entrarmos pela fresta de um bueiro semi-aberto. Era um barulho ensurdecedor de pesadas patas loucas bem acima das nossas cabeças e agora não só o Zé, mas também eu e o João desandamos no choro. Felizmente, livres dos bois profanos, recuperamos as guaiavas que permaneceram inteiras (ou quase) e seguimos, meio silenciosos, o caminho de volta.
Infantoterapia
Prólogo
No primeiro capítulo do Infantoterapia menciono o fato de que escrever sobre a infância é uma terapia. Não sei se do tipo regressão, mas uma terapia. Na idade em que ter à pia a cabecinha é fácil, não se tem grandes compromissos com lógica, noção de distância e tempo, ainda não se é vítima de compromissos inadiáveis, anos de trabalho, não se pensa na morte – afinal trata-se de um recém chegado ao mundo – não se paga contas, não tem sentimento de culpa. Muitos dirão que isso é assunto de velho, de quem já está saudoso de tempos que não voltam mais, etc e tal. Discordo. Tente você. Descobri um material riquíssimo perdido em algumas das milhares regiões do cérebro que servem de biblioteca de si mesmo. Cada volume sacado da estante cinzenta, trás lembranças incríveis, de vários matizes, que estimulam outras, ainda em stand by, esperando por uma consulta, aguardando por um estímulo. Ver-se a si próprio, não no espelho, mas sob a ótica de outra época, de quem se enxerga como se fosse outro. Outro sim, mas com intensa identificação com esse em quem se transformou. Lembrar e escrever sobre o que se foi é brindar o que se é. É brincar de assistir ao melhor filme de todos os tempos. O filme da sua vida. Bon appétit.