Capítulo XXIII – Parler-vous Français?

Passando o dedo devagar na sobrancelha, costumava me preparar pra dormir. Isso me dava uma morbidez gostosa que proporcionava uma sensação de desapego paulatino deste mundo e me levava a outros, nublados, que iam se dissipando no nevoeiro do fundo azul-claro da tela do sagrado coração de Jesus. Sumiam os dedos em riste e lá estava a visão totalmente embaçada dos sonhos de piratas lidando com torrentes, rompendo espumantes cristas salgadas. Pálidos e perplexos marujos agarrados às cordas do convés tremulando fita vermelha na testa, ávidos de aventura antes de largar a casca. Cabeça, olhos, boca e pescoço de dragão soberano ante as revoltas águas. Suor no leito. Era tão real! O coração exposto a me encarar. Hora de acordar.

 

Educação física nas Palmas do Tremembé. Dia de jogo. Mal amanhecido o dia e a névoa fresca da manhã me acompanhava. Velas vermelhas de macumba nas esquinas em sinal de rituais noturnos do tranca rua. Não pega com a mão isso, não chuta com o pé aquilo. Longa caminhada até o campo quase vermelho de falta de grama. Traves do gol descomunais para um goleiro como eu, de salão. Joelheiras postas, luvas improvisadas de guidão de bicicleta, camiseta lisa de mangas compridas, batida com calcanhar no poste.  Ar sério. Silva o juiz e rola a bola. Correria longe, rebote da defesa adversária, bloco se aproximando, batidas de pés ecoam no solo duro, rachado. Tensão. Chute de meia distância, dois passos à esquerda e impulso intenso. Mãos trocadas. Desvio dos dedos. Ainda deu pra ver, no ar o resvalo no ângulo do travessão... Felizmente pra fora! Frisson geral. Nesse dia ganhei o mundo e um ponto a mais na média. Volta pra casa de peito estufadíssimo, promessa de vaga de titular. Bobagem, ninguém a quer, a não ser eu. Mas naquele momento ganhei a vaga de mim mesmo. Me superei. Todos da aula do Pierre vão saber.

 

Pierre era o professor de francês. Grande e alto, pele delicada e vermelha. Toda aula era a mesma coisa. Falava baixo e não se empunha como mestre. Repetia sempre as mesmas frases do tipo Où vas-tu? Je vais a l´école, porque ninguém prestava atenção e acho que ele achava que aprenderíamos por repetição. A bagunça era tamanha que rolavam gargalhadas e bolas de papel entre as carteiras, brigas de vizinhos e, inadvertidamente, quando frenéticos aviõezinhos já voavam pela classe, no meio da lição da mademoiselle, tuc, um dos ultraleves acertava a cara ou a cabeça do atônito francês de nascença, o que causava inevitáveis gargalhadas dos pestes de plantão. Isso - reflito agora depois de grande - devia ser humilhação extrema a um ex-morador da Gália transalpina, porque ele ia transformando sua enorme cara vermelha em roxa, à la Hulk de cor trocada, olhos dilatadíssimos e PÁ – uma batida descomunal de mão aberta na mesa de madeira que, ato contínuo, calava qualquer som a centenas de metros. Esclarece-se que sua mão era do tamanho de uma raquete de tênis e certa vez literalmente afundou uma mesa mais frágil. A este tenso cenário seguia-se um silêncio mortal e logo o monsieur professeur com olhos totalmente esbugalhados gritava os mais altos berros, ou berrava os mais altos gritos palavras em quase português do tipo: “pestits”, “ignorrants”, “mentecapts” junto com mais batidas comprometedoras à integridade dos jacarandás que, Deus seja louvado, é gênero de mais de 100 espécies e as imbuias, então ainda abundantes, que os homens não são de muitos louvores, das aroeiras, cedros e cerejeiras. Mais sofriam os freijós, guarnecedores dos cantos escuros e internos que, sem esperar tamanho impacto, envergavam de medo e quase embranqueciam. A aula acabava mais cedo porque, descontrolado ao extremo, a ponto de engolir vivo algum de seus enfants pupilles, era detido por outros mestres ou pela diretora que não sabia mais o que fazer. Os alunos, sabidos que eram, fingiam não ser nada com eles.

 

Nessas alturas já exalava o aroma do pão com carne moída, molho quente e queijo derretido que vinha lá da lanchonete esperando pelas pequenas e ávidas bocas. Enquanto o mundo conhecia os Supertramps, ricos meninos que tinham algum cruzeiro amassado e apertado na palma da mão corriam na direção do quiosque improvisado pra chegar primeiro e garantir seu lanche. Outros menos encruzeirados desembestavam à cantina de olho na sopa, meio rala, é verdade, mas saborosa. Em dia de mão vazia, preferia o café com leite, ainda morno da lancheira e um amassado pão com ovo frito, que às vezes trocava por dois pirulitos G-crack (nem sei como se escreve) que me lembro bem, era um retângulo de caramelo com vários riscos paralelos e na embalagem vinham jogadores chutando bola. Aliás, tinha um pirulito de chocolate que era uma bola de capotão perfeita que ia se desfazendo a cada chupada. Tinha dia que passava o recreio trocando produtos mirins em busca de um escambo perfeito. Às vezes acabava com um punhado de ping-pong, uns de sabor hortelã e outros tutti-frutti, mas tinha vez que voltava pra sala eufórico com algum soldadinho de plástico e falava e gesticulava, pulando e chutando o ar de contentamento, dizendo pra todo mundo olha o que eu troquei com o Nelson!!

 

Linda Eastman estava se casando com o Paul Mc Cartney, juntando seus trapinhos e Samuel Beckett, com seu teatro do absurdo dos desesperados esperando por Godot, ganhava o Premio Nobel. Caetano brincava com os argonautas e receitava: atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu.

 

Capítulo XXII – Vasto Mundo

 

Inexplicável o atraso do prelo, não tem dado tempo nem de rezar, gasto no quarto um quarto de minha vida, ao contrário de muitos que gastam um terço porque rezam.

 

Vendo a torneira jorrando água na jarra, me deu vontade de mijar. Perdão pelo chulo termo que de intransitivo (quem mija, mija e pronto) migrou rápido para transitivo direto e estava por virar pronominal. Danou-se! Como sempre, nessas horas aparece algo pra atrasar o alívio. Era o Humberto Silva convidando pra jogar bilhar na casa dele. A vontade acelerou pela excitação do jogo. Apertei um bocado minha torneira. Peraí um pouco que vou no banheiro. Já ia o jato morno produzindo amareladas mini-bolhas n´água e minha cabeça olhou pro teto, com olhos fechados e boca aberta em êxtase.

 

Íamos sempre na casa dos Silva. Sei que não somos americanos pra falar assim. O nosso normal é falar que vamos na casa do fulano e pronto, ao passo que os ianques costumam dizer que vão na casa dos de tal. Os irmãos maiores, e eles eram grandes, sempre se apresentavam assim, Humberto Silva, Ariovaldo Silva, completo. O mais novo, porém não menos crescido de tamanho, chamava-se só Luisinho. Não que ele não tivesse sobrenome, mas se apresentava como a maioria, simplesmente Luisinho, e estamos apresentados. Não preciso dizer que os pais deles eram grandes. O pai, dono de um ferro-velho, vivia sujo de graxa. A mãe, do lar. 

 

A família gostava da gente porque não caçoávamos deles. Apesar de muito grandes, eram extremamente ingênuos e os meninos da rua costumavam bulir com os três. Isso até ensinarmos algumas coisinhas a eles. Descobriram que uma bordoada de vez em quando faz moleque chato passar mais longe. O Ariovaldo, a certa altura, tivemos que desensinar, ou melhor, explicar que não podia exagerar que não era caso de mandar ninguém pro Pronto Socorro de Santana. Ele batia e ria. Uma risada às vezes preocupada de quem sabe que aquilo não é legal, às vezes curtida, saboreada a cada tapa nos surpresos pivetes. Quando, no meio de uma pisa, passamos a pedir que eles parassem de bater, os outros meninos descobriram que a culpa era nossa. Nossa não, não sabíamos que eles iam gostar tanto e, de qualquer forma, passamos a ter um poder dobrado em número ou, melhor dizendo, redobrado em tamanho, o que nos deu uma tranquilidade que nem sequer imaginávamos. O fato é que os pirralhos da vizinhança ficaram, como se diriam nas gírias futuras, espertos! Não mexiam mais à toa nem com os Silva nem conosco, que era líquido e certo que ficariam roxinhos da silva. Aqueles irmãos passaram a lembrar os gauleses do Asterix e os meninos da rua em geral, os romanos. Vi muito deles, os mesmos que antes chutavam as bundas, beliscavam e estapeavam as gaulesas nucas e outras diabruras, agora correndo de pânico ao avistar um Silva.

 

A casa deles era grande e térrea. Enquanto jogávamos, e isso eles sabiam fazer bem, a mãe deles servia goiabada quente com pão e refrigerante. Coisa de doido, muito bom! Eram de Araraquara que, infeliz coincidência do destino, é um topônimo com muitos erres e caía como uma luva ao sotaque arrastado do interior. Pelo menos sou de Caconde. Pior pro João, que até hoje, mesmo brincando, fala que nasceu em Pinhar. Eles estudavam em outra escola – Rodrigues Arves, do lado esquerdo da Av. Ataliba Leoner, pra quem vai pra região centrar.

 

O Rodrigues Alves, acho, dispensa apresentações, né? Terceira maior fortuna do país da época, além de presidente fora ministro da Fazenda e tinha uma fazenda de 400 cômodos, onde as refeições eram servidas com talheres de vermeil, que pra mim que sou quase mineirin, isso é uma corzin assim vivin, o que não é de todo mentira já que, após consultar o dicionário, vi que se trata mesmo de uma cor rubicunda. Salve salve os Alves ainda vindouros! Salvem os prudentes de moral. Não se trata apenas de um número par. Veja que são 400! Nem 40, nem quatro, que muitos têm só isso de acomodações. Nem mesmo Ali Babá, o pai de todos, sonharia com 400 seguidores. Contra Xerxes, Leônidas que era Leônidas só tinha trezentos para defender as Termópilas, lugarzinho sinistro, palco de guerras sangrentas envolvendo macedônios, gálatas, helenos, romanos e sírios. Com o mesmo número de 300 soldados, Gedeão retomou a parte central da Palestina aos invasores midianitas. Não é à toa que Gedeão significa matador. Mas 400 cômodos! Se friso e refriso é porque a frieza dos números em geral impacta pouco. São só números insignificantes, ao contrário da quentura de tantos cômodos formados por sete comovidas letras que lhes dá significado ímpar. Um cômodo para cada ano da existência histórica do carnavalesco país de então. Esteja claro este último advérbio de tempo. Alves não morreu no vulcão, mas no Rio. Depois dele, o próximo Presidente da República paulista, desculpe o bairrismo, foi o ilustre conterrâneo cacondense Ranieri Mazzilli, por poucos dias, é verdade, mas foi, quando eu nem sequer tinha completado um ano. Alguém aí conhece alguma escola com o nome dele? Tem pelo menos uma em João Pessoa e outra em Jundiaí.

 

Essa história de nomes de ilustres nas escolas é normal, eu sei, mas alguém se lembra quando pequeno das suas biografias? Que eram divulgadas isso eram, mas ninguém captava. Podiam pôr outros nomes, sei lá, de personagens de estórias. Por exemplo, Escola Estadual do Primeiro Grau Jeca Tatu. Você falando pro seu colega: vai no Jeca hoje? Hoje não, que não tem tatu que agüente aquela professora Leocádia. As crianças falavam que iam pro Rodrigues, pro Albino, que era mais fácil de falar do que Albino César, que ninguém pensava no ilustre, o que vinha à mente era o espaço físico da escola e só. Mas o Albino César foi no colégio, nome do segundo grau ou ensino secundário daqueles tempos. Aguarde, que aqui pra nós ele ainda é futuro. Ave César! Se é que posso me atrever a renomear um ex-presidente ao estilo do blues, deixo o Rodrigues “400 cômodos” Alves.

 

Voltemos aos Silva. Eles passaram a colecionar as figurinhas do mesmo álbum que a gente. Assim podíamos trocá-las e era mais fácil preencher o álbum. Era um de animais, desde os pré-históricos até os mais modernos. Nem acreditei quando dois cromos duplos completaram um plesiossauro magnífico, na primeira página, com suas enormes patas submersas e o tronco e o pescoço descomunal fora d´água, com algas deslizando de suas mandíbulas gigantescas. Era o principal sauropterígio da época. Desde então decidi ser paleontólogo. Pena eles terem acabado.

 

Rivelino fazia propaganda de opala e Jackie Stwart venceria o campeonato de F1. Mais tarde, sua escuderia – Stwart - faria sua única pole-position conquistada por Rrrrrrrubens Barrichello. As cinzas das horas também flagraram seu criador, Manoel Bandeira. Como diria seu admirador Carlos Drummond, que declamava, declamava e reclamava, mundo mundo vasto mundo se eu me chamasse Raimundo...

Capítulo XXI – Pasta de Doce de Abóbora

A mencionada velocidade do mundo é relativa. Uma raulseixisse: eu quero dizer agora o oposto do que eu disse antes. Não que eu tenha mudado de idéia. É que tudo muda bem depressa, mas algumas atitudes não. Tanta evolução e ainda se destrói o mundo. A Química moderna de Boyle é do séc. XVI. Ou seja, 400 anos em 4,5 bilhões é apenas a décima parte de um milionésimo da idade do planeta. Eis a grande esperança. A Terra já foi líquida e hoje você vive, existe e lê. Talvez haja uma saída. Saída pro recreio. Tocava o sinal. Sons elétricos infindáveis até a quase rouquidão da campainha – bééééééééééééééééééééééééééééeééééiiiinnnn - eram música aos pequenos ouvidos. Era hora do lanche, que hora tão feliz, se você sabe completar, então diz. Momento das paqueras, das correrias, do futebol com bola de papel, da ausência da aula. Lá no Silva Jardim as carteiras eram duplas, sentávamos dois a dois. Eu sentava ao lado da Rosely, uma menina mais velha, ou menos nova. Ficou sem estudar uns tempos, nem me lembro o motivo. Seios da face suaves e róseos feito pétala, lábios pintados carnudos, olhos de lazulita, brilho vítreo azul-violeta. Era linda e ela me escolheu. Chegou depois de todos e pediu pra sentar do meu lado. Meio surpreso, orgulhoso e boquiaberto, consenti. Ficamos fãs um do outro, ou outra do um, uma do outro, como queiram. Os olhares mortais de fogo dos colegas estavam claros e vívidos. Quando mexiam com minha parceira eu partia pra cima, mas eles tinham mais medo dela do que de mim, que era mais madura e dizia coisas que os pirralhos não estavam acostumados a ouvir das moças. Ficamos juntos até o fim daquele ano, quando tivemos que nos despedir porque ela ia mudar de novo pra bem longe. Chorou tantas lágrimas que seu narizinho de Jeannie é um Gênio ficou todo vermelho e eu sofri um bocado. Como também eu era um mutante contumaz, sabia que tinha que me acostumar com despedidas. As tristezas eu deixava no pátio, nas brincadeiras e brigas. Volta do recreio e a professora Nilze vinha com a aritmética e depois o português, desfilando suas letras redondinhas. Também rezávamos com as palmas das mãos juntas e tudo. Quando ela entrava na sala, todos tinham que levantar com as duas mãos pra trás. Fazia ainda uma rápida, mas minuciosa revista e dava o sinal para sentarmos. Era daquelas que impunha respeito. Mesmo na rua, um dia voltando pra casa, fui surpreendido por ela que vinha no sentido contrário. Trazia minha japona pendurada nas costas segurada por um dedo no ombro. Ela parou e pigarreou. Hã, hã, como é que se leva a blusa? No que imediatamente a tirei do ombro e a coloquei pendurada no braço postado na altura da barriga. Ah, bom, agora sim. Continuei assim, olhei pra trás e ela também, só pra conferir. Dobrei a esquina e voltei ao ombro mas, mesmo assim, olhava pra trás de vez em quando pra ver se ela viria. Nóia de menino. Richie Heavens, Ravi Shankar, Joan Baez, Santana, Janes Joplin, Grateful Dead, Creedance, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Ten Years After, Johnny Winter, Paul Butterfield, Jimi Hendrix cantaram e tocaram no Festival de Woodstock para meio milhão de pessoas amontoadas em uma fazenda. Ao contrário das previsões, só houve dois mortos, um por overdose e outro atropelado por um trator enquanto dormia no campo.  Entre um e outro reggae pensava na Regiane, colega de olhos verdes, pele morena e lábios grossos em proporção com seu rosto fino. Pisquei pra ela no recreio e seu olhar maroto denunciou sua velada satisfação. Em meio aos devaneios paquerísticos avistei o Cica, apelido hipocorístico de cicatriz causada por tiro de revólver. Não era aluno. Só ia lá para encontrar outros carinhas. Era, de longe, o menino mais perigoso do bairro e amigo do Jair e do Cabeludo. Deparamo-nos encarando um ao outro, sem que nenhum tirasse o olho. Ninguém piscou, nem parou, nem falou um “a”. Melhor assim. Melhor pra mim, que segui meu caminho agora sem olhar pra trás, mas acho que ele deve ter olhado. Foi um alívio não tê-lo visto mais naquele dia. Surpreendentemente fui pra casa sem problemas. Quando cheguei comi pão com manteiga e pasta de doce de abóbora.

Capítulo XX – Casa Nova, Vida Nova

Armstrong e Aldrin estavam por pisar na Lua e Ho Chi Minh por deixar o mundo. Mas “aquele que ilumina” não desceu a terra, como sói a um mortal normal. Ao invés, um mausoléu. Mudemos de pato pra ganso. Mudamos do Jaçanã para o Tucuruvi. Trocamos o pássaro pelo gafanhoto. Tucuruvi – olha o tupi aí – significa gafanhoto verde (tucur-oby). Tem quem diga que é corruptela de itaguarovy (taquara verde), mas fico com o gafanhoto. Aqui um parênteses. A etimologia assemelha-se a uma pessoa: tenta buscar lá longe nos tempos idos, na infância da linguística, alguma palavra perdida que os anos desgastaram, mas que contribuíram para a formação atual. Uma e outra, no entanto, dependem de pesquisa, que não há memória suficiente que dê conta de saber sobre todos os camaleônicos vocábulos ou fatos. Assim é que muitas vezes tenho que contar com pai, mãe, irmão ou tio a chacoalharem minhas lembranças. Senão seria assim, como na palavra manequim, cuja reconstituição de um falso etimólogo, teria uma origem anglo-lusitana ou luso-britânica dando conta de que tal palavra teria em seus primórdios a definição de certo rei que nem sequer olhava aos seus súditos, de queixo erguido e mãos paradas no ar, por certo um dos dons manuéis – Manuel King, que evoluiria para Mané quim. Enfim, não há certeza absoluta, nem da formação das palavras - que ao verem destrinchadas suas histórias se deparam com termos como: segundo o autor x, ao contrário do autor y - nem das peripécias das vidas de pessoas, tenham elas nomes como Álvaro, Alberto ou Ricardo ou sobrenomes como Caeiro, de Campos ou Reis. Se nos dias de hoje nada mais mentiroso que um reality show, imagine nos dias de ontem! Se a morada cantada por Adoniran tinha lá suas tradições, o novo bairro também. Onde hoje tem a estação do metrô Tucuruvi era a estação Cantareira do mesmo trem do Jaçanã. Os trilhos estavam então recém encobertos por asfalto e obras. Tinha a Rua Bonita só de terra, argila e mato por onde – diziam – passavam os trens e ficavam os trilhos. A rua ficava atrás do Silva Jardim, minha nova escola, na qual chegava de avental branco, primeiro com o desenho do verdíssimo gafanhoto no bolso, depois com o vulcão Vesúvio vermelho e amarelo que tragou o abolicionista, republicano e doador do nome àquela instituição pública. Se veio do pó, à lava se foi. A argila branca da Rua Bonita era um destino imperdível pra travessuras e a matéria prima pra muitas esculturas indecifráveis a olhos leigos. Mas sabíamos muito bem o que fazíamos. O barro impregnava e ressecava a pele deixando-nos parecidos com caras pálidas. Bom mesmo era pisar na massa úmida, deixar que ela passasse por entre os dedos dos pés de baixo pra cima. Era refrescante e dava mais energia pra enfrentar os outros curumins no bate-bola de chão batido, áspero feito lixa. Ninguém saía de um jogo desses sem a perda de um tampão de dedo ou de uma unha, mas quem ligava pra isso? Nossa casa ficava na Rua Ponte Pensa, entre o Tucuruvi e a Parada Inglesa, que era a estação mais além e que hoje também é estação de metrô. Infelizmente perdemos o trem por muito pouco tempo. Interessante que moramos lá entre o trilho antigo de superfície e o moderno subterrâneo sem conviver com nenhum deles. Mas ainda sentia o cheiro – eu e meus cheiros – do trem antigo. Sua energia ainda estava lá. A casa era bem maior, um sobrado ao contrário, ou seja, quem a via da rua pensava que era térrea, mas não. Passando o portão pequeno de ferro, que sempre rangia, tinha uma escada comprida do lado direito que descia por um corredor e dava acesso ao quintal, à sala e à cozinha. Os Cômodos eram grandes. Uma escada interna levava aos dois quartos e banheiro. O nosso quarto dava pra uma pequena varanda em frente ao rangente portão da rua. Fechado o circuito. Aí passamos longos e divertidos oito anos, cujas peripécias já vêm por aí. O caminho entre a casa e a escola era bem mais longo que no Jaçanã. Entrávamos à direita na Álvaro Machado Pedrosa, subíamos até a Av. Tucuruvi à esquerda, mais trezentos metros e pronto. Ainda inocente que era, demorou um pouco pra perceber que eu e meus irmãos não fomos muito bem aceitos como novos vizinhos. Mais seguros nas terras de Piratininga, achávamos que faríamos amizade facilmente. Ledo engano. Os rachas de bola eram mais ríspidos quando pedíamos pra jogar. Os meninos do lugar cochichavam à distância olhando cinicamente pra nós. As insinuações viraram ameaças e estas acabaram em brigas intermináveis. Tanto o caminho de ida pra escola quanto a permanência nela e a volta eram desafiadores. Não bastasse isso, ainda havia a rua com suas disputas naturais. Talvez tenha sido esse novo mundo belicoso o gerador de certo caráter competitivo incutido na gente. Mas ainda éramos crianças e os perigos eram pouco evitados, às vezes até mesmo procurados com certa excitação, tal qual o menino de pijama listrado que morreu no campo de concentração. Nessa fase correm-se mais riscos, simplesmente porque não se acredita no azar. Não há barreiras intransponíveis. Não há injustiças nem tantas diferenças entre as pequenas cabeças - essas ficam para os grandes homens. Criança só tem vontade de se conhecer, de perscrutar o outro, de se divertir, enfim, de viver. Mas algo iria virar. E o João se encantava com suas pipas ou papagaios ou quadrados, que sempre tinha. Raias, que eram do tipo sem rabiola, peixinhos, em forma de losango, o maranhão com cabeça em forma de pentágono, que era o maior e o senhor do céu. Quando não, caprichava uma capuxeta que - muito me espanta - não consta nos grandes dicionários. Então, pra quem não sabe, capuxeta – acho que é com xis – era um papagaio meio assim assim, improvisado, feito de jornal, não de folhas de seda coloridas como os outros. Fazia-se desse jeito: cada ângulo reto das extremidades opostas de um quadrado daqueles inúteis papéis de notícias, ou de classificados, ou de propagandas eram ligados por nós, nas pontas de um pedaço de linha. A rabiola era uma corrente com cada elo feito de tiras também de jornal coladas nas pontas com cola de farinha de trigo e água, que era a liga dos papagaios por excelência, Tudo pronto e lá vai a capuxeta, solene sob o sol, com suas letras ao léu, em contraste com o distante azul, até ficar presa em um fio de rua. Motivo de xingamentos e raiva com cara vermelha e tudo do João. Lá vem o Jair, um menino alto, esguio e completamente afro-descendente, de olho torto e arregalado e outro moleque branquelo, cabeludo tipo roqueiro que parecia mudo – nunca ouvi sua voz. Era mau sinal. Cheiro de encrenca. Já sabíamos das suas intenções. Eis que o cabeludo, sem dizer palavra, joga uma pedra na capuxeta do João que faz um rombo digno de perda total. Ele ainda estava dando soquinhos com a linha, tentando tirar o brinquedo e póc, foi o fim. Igualmente sem dizer nada, jogou a lata de linha no chão, pegou a cabeleira do cabeludo, torceu, derrubou-o no chão, subiu em cima dele e começou a bater. E o tempo da ação demorou o mesmo tempo da sua leitura da frase. O Jair tentou intervir, mas eu, que já estava por aqui daqueles dois, entrei na frente já com os punhos fechados na frente do queixo. Os dele, também armados, mostravam um grande anel prata, que nunca me esqueço, tinha forma de caveira e luzia ao sol. Mas não chegou a usá-los, porque, provavelmente pelo teor de adrenalina correndo em meu corpo, num movimento rápido, desfiz minha posição, joguei minha mão fechada pra trás, para voltar com toda a força da direita para a esquerda, acertando em cheio a orelha do tal que de imediato mostrou um veio de sangue. Atônito pela bordoada e pelo inesperado, pra minha surpresa e alívio, não esboçou reação e bateu em retirada no exato instante em que o Seu Chico do bar da esquina tirava o João de cima do cabeludo mudo, que foi embora meio torto e quieto. Jair saiu com a mão em forma de concha sobre a orelha e o outro não disse um ai. Comemoramos como infantes a primeira batalha de uma guerra que se esboçava. O mundo voava veloz e rispidamente. O concorde fazia seu primeiro vôo em meio à Guerra Colonial de então. Ares de liberdade sopravam e soavam vozes d´África. Vão se findando os impérios oficiais.

Capítulo XIX – Água

A ansiedade, ao contrário da anciã idade, pega o moleque querendo crescer, querendo correr as letras, ácaros, palavras, mofos e páginas até o FIM! Cuidado, volte rápido antes da contracapa cinza e retome o tempo, o ar, agora com fôlego, com-pas-sa-da-men-te. Não queira chegar logo naquele tal episódio, naquela situação inusitada, que depois há um gosto de “foi-se”. Voltando aqui com meus oito anos de aventuras frescas quero crescer sim, mas ainda vivo o presente como uma guloseima farta saboreada a cada abocanhada. O mistério por trás das saias das meninas. A ternura do carinho materno. A alegria da ralação de pele nos corre-corres. Mesmo sem verbo, as frases versam por si só. A dita liberdade de expressão, dizia-se, estava em baixa. Pensando bem, ela nunca existiu em sua plenitude. Ela nunca houve. O que há são várias formas de controlá-la. O que é que há? O diabo e o quiabo escorregam juntos, cada qual na proporção da sua viscosidade. Ah, aqueles tempos! Hora de melhor conhecer o mar. O mar, quando quebra na praia, é bonito, bonito. Não é plágio, empréstimo. Mais uma vez caí-me na areia. E o Dorival com sua roupa e cabelos cor-de-espuma era quase parte daquela imensidão. Foi em Itanhaém. Também naquele dia não fazia sol e a água era fria, fria. Tal qual na primeira visita com meu pai, o mar era alegria e angústia. Sumia no horizonte, parecendo querer nos levar a cada retorno das ondas. Chovia fino e ventava muito. Minha mãe era só atenção com a cria. Nada de ir mais longe que a cintura. O tio Luis nadava sem parar nas ondas distantes e imensas. Sumia atrás de cristas e subia em outras. A mãe só dizia: - Meu Deus, esse Luis Júlio é louco! As conchas e areias eram mais seguras e também divertidas. E aí veio uma triste notícia. Pessoas faziam roda em torno de um náufrago, morto. Minha mãe quase morreu junto, do coração. Não, não era o tio, e sim um desconhecido. Estava com amigos que se abraçavam de tristeza. Tristeza que tomou posse de toda a praia. O pai entrou logo no mar e gritou muito pro tio Luis poder escutar e voltar rápido. Voltamos pra casa cabisbaixos. Isso me valeu o enorme respeito que tenho pelo mar até hoje. Não posso deixar de relatar três experiências que tive quando adulto, duas com o gigante salgado e outra numa cachoeira. A primeira foi em Maresias, Ilha de Tok tok Pequeno. Parece com uma tartaruga esculpida em pedra. Tok tok é tartaruga em tupi, o que confirma a tradição indígena da objetividade nos topônimos. Estávamos num pequeno barco ao redor da ilha, todos de colete salva-vidas. Da família tinha o Zé e o Vinícius, meu filho, que então tinha pouco menos da minha idade nessa altura do texto. O Vi desde pequeno adora nadar. Descemos do barco e nadamos poucos metros até as pedras que pareciam fáceis de serem superadas. Já bem próximos, reparei na enorme quantidade de ouriços rodeando a ilha, incrustados nas rochas. Com o suave embalo de uma pequena onda “pousamos” mais adentro, onde não havia ouriços. Admiramos a paisagem por um tempo até que uma onda absurda vinda não se sabe de onde, cobriu quase toda a pequena ilha. Ainda deu tempo de eu agarrar o Vinícius, mas só. Fui rolando com ele abraçado ao bel prazer da onda doida, me ralando e furando a pele nos infindáveis espinhos dos ouriços. Quando veio a calmaria, me apoiei em uma rocha e literalmente arremessei o Vi na direção do Zé, que já vinha ao nosso socorro. Ambos nadaram de volta ao barco. Só voltei depois de tomar certo fôlego. Quando sentei no barco, o chão que era branco ficou tinto de puro sangue. O Vi escapou ileso, por que ficou protegido por mim e pelo colete. Seis meses depois, ainda saiu um espinho de ouriço da minha barriga. A segunda vez foi em Paúba. Passávamos o fim de semana na casa de uma namorada de meu amigo e colega de trabalho Átila. Ele surfava. Eu não. Só nadava, sossegado, quando percebi que não conseguia mais voltar à praia. Por mais que nadasse ela ficava mais longe. Onde eu estava não era tão fundo, mas não dava mais pé. O fôlego foi acabando, até que resolvi desistir de nadar e fiquei por uns dez eternos minutos boiando e tentando respirar o mais pausadamente possível. De vez em quando olhava pros lados pra ver se me afastava muito ou se havia alguém por perto. Eis que avisto o Átila lá longe, com o peito na prancha. Comecei a gritar e ele me ouviu. Quando chegou já foi dizendo pra eu segurar na prancha. Disse que não estava conseguindo sair dali e ele apenas falou: - você ta brincando!? Não, não estava. Segurei na parte de trás da prancha e fomos nadando e remando até a praia. Estivesse sozinho, babau! O ocorrido da cachoeira foi em Boiçucanga que em tupi significa cobra de cabeça grande. Subimos o Moisés, o Zé e eu a belíssima cachoeira até sua primeira grande queda que forma um poço de uns cinco metros de fundura. Muito bom pra se refrescar e nadar a vontade. Acontece que a queda exercia uma pressão no poço que nos atraía até aquelas fortes pancadas. Mas não era nada de tão perigoso assim, a não ser pelo fato de desconhecermos que o Moisés era um péssimo nadador. Como ele não conseguia se safar da atração da queda foi afundando e girando debaixo d´água. Tentamos com todas as forças puxá-lo para as bordas, até que o Zé, já sem fôlego, saiu da água e eu ainda tentei um último recurso: mergulhava e empurrava seu corpo para cima, na esperança de que ele respirasse e saísse dali. Nisso o Zé já estava gritando desesperado que o Moisés ia morrer. Sem mais uma gota de energia saí às duras penas daquele redemoinho e me juntei ao atônito irmão. Logo depois, avistamos o Moisés, à beira do abismo de rochas, abraçado a um pequeno monólito. Mais dois metros e se estatelaria lá embaixo. Provavelmente nem acharíamos seu corpo. Estava roxo e tremia de bater os dentes. Com muito cuidado, fomos até ele e conseguimos resgatá-lo. Ríamos nervosamente e chorávamos pela sensação de recuperação da vida. A água, nossa razão de existência, sabe ser traiçoeira quando quer. Essas lembranças são ainda do futuro, mas cabíveis aqui, pela infantilidade dos atos. Notem que bastou crescer que a extensão do texto aumentou. Portanto, voltemos à menor época, às aventuras menores.

Capítulo XVIII – Aranha

Lá no Jardim, nos desbravamentos das matas, verdadeiras florestas, rios caudalosos, situações muitas vezes hostis, mesmo assim, nunca fui vítima de nada digno de nota. E, no entanto, estava eu a desvendar os segredos do terreno baldio ao lado da casa do Jaçanã, eis que uma danada de uma aranha subiu em minha perna e não teve dúvida, picou com gosto. Até hoje lembro-me bem da “cara” dela, quer dizer, do jeitão geral. Não era uma enormidade, tinha tamanho médio, no máximo três centímetros (cinco na lembrança de menino). Mas a picada foi doída e ficou por muito tempo. Na região do ataque, altura da batata da perna do lado de fora ficou uma mancha vermelho-arroxeada. Gritei pro João que era o “Repórter Esso” da família e minha mãe correu comigo até o Pronto Socorro de Santana, único com soro antipeçonha. Tomei a tal injeção e, embora o local tenha ficado feio por uma semana, não houve maiores conseqüências. Seriam os matos daqui mais perigosos do que os de lá? Acho que não. Acho que a tal aracnídea estava com TPM e só. Aliás, sempre gostei de aranhas. Cheguei até a domesticar uma caranguejeira batizada de Filomena, bonita e peluda, do tamanho de minha mão depois de grande, “colhida” injustamente de seu habitat, durante uma travessia da Serra da Mantiqueira entre São Francisco Xavier e Monte Verde. Como não tem veneno, tinha até hora de passeio pela casa, visitas a outros amigos nossos e era alimentada com insetos vivos na sua caixa-pensão. A terafosídea parecia feliz e saudável e acabou entregue ao Instituto Butantã, onde deve ter morado até seus últimos dias. Coisa de adulto. De volta à época do texto, passei a olhar aquele mato com mais cautela, sempre à espreita de artrópodes suspeitos. Outro menino da rua disse que era a favor dos americanos na guerra, mas ninguém mais era e disse a ele que se todos eram contra e ele era a favor, então ele era do contra. A indesejada das gentes apresentou-se ao Bandeira do Brasil modernista de antes. Deixou-nos com suas cinzas das horas. Foi-se a estrela da vida inteira no mesmo ano da criação do Pasquim e de Veja. Sinal de recuperação, coçava a ferida da perna. A lição do cachorro só tinha ca, co, cu. O ce e o ci eram da lição da cebola. Acho que era pra não bagunçar nossa cabeça. Pensavam que podíamos dizer sachorro ou quebola?. Coisas da cartilha, que só ensinou o cedilha mais no fim, na lição da moça. Até no desenho atual a moça parece ser daqueles tempos, simples, sem o estilo das donzelas do século XXI. Mas aquele ano foi efervescente! O mundo explodia em revoltas, em prol da liberdade de expressão, cabelos compridos, rock´n roll, estudantes passeatando nas ruas de Paris, Londres, São Paulo e Rio. Costa e Silva assinou o AI 5. Ai de nós, que seguimos caminhando e cantando com Vandré. Com ou sem razões, progredimos entre vozes e canhões. No paraíso da Rua Parazinho jogávamos queimada e uma bomba destruiu a entrada do jornal O Estado de São Paulo. Cartilha debaixo do braço e uma caminhonete bateu no muro do QG do exército de São Paulo com 50kg de dinamite. A gente não sentia nada disso quando a mãe nos levava na “cidade”, que era o nome que se dava ao centro, como se morássemos na roça. Principalmente quando íamos ao dentista, na Galeria Nova Barão, passávamos no Mappin pra ver os brinquedos. Era emocionante. Na primeira vez foi um êxtase só. Nunca tinha visto tanta cor e tantos brinquedos que se mexiam sozinhos. Cuidadosamente, a mãe percebia os que mais nos empolgavam e fazia de tudo pra que ganhássemos no Natal. Lembro-me do Forte Apache, com índios de cocares e penas apontando flechas e arremessando machadinhos com suas tendas, soldados com lenços no pescoço de bruços apontando espingarda para algum índio fictício, béing, béing, era o som de tiros saindo da boca, os muros do forte de madeira, tudo de plástico. Os ianques novamente venciam, agora os cheroquis. Polícias de lata de fricção com sirenes e luzes piscantes. O mercado jorrava soldados, quartéis e tanques de exército nas mãos das crianças de todos os modos possíveis. E bolas, muitas bolas de capotão que não podiam faltar. A que mais me lembro era verde e amarela. Passávamos sebo na sua superfície pra manter o couro por mais tempo. Simplesmente venerava misto quente no pão de forma e iogurte batido numa lanchonete da Sete de Abril. Ainda sinto aqueles gostos. Também morreu o Stanislaw Ponte Preta, Caetano e Gil foram presos, pra não dizer que não falei das flores.

Capítulo XVII – 100kb

 

 

Quem diria que só agora, no 17º capítulo, chegamos aos 100kb de texto! Isso dá uma média de menos de 6k, assim seco, por capítulo e isso confirma o tema que trata de gente pequena. Pequena, mas com princípios. Lembra-me, depois de crescido, um cidadão que me dizia ter princípios, termo vago, que dá a entender que o fulano é mais que outros. Ele dizia que tinha princípios e apenas e tão somente de vez em quando, apesar dos princípios, os meios podiam justificar os fins. Do que se pode concluir que era uma pessoa de princípios, meios e fins. Não sei que fim deu ele, mas continuemos aqui com meus princípios. Aproveitemos bem os próximos parcos cabaites, que tratarão da escola da Rua Parazinho. Naquela época, as professoras eram zangadas e aterrorizantes. Uma me beliscou o braço que deixou uma roxidão doida. Uma conversinha de nada com o vizinho. Minha mãe foi reclamar e a fessora retrucou que crianças mimadas são malcriadas. Minha mãe disse que não tocasse mais a mão em mim, que se tivesse reclamação, que mandasse chamar que ela iria à escola e que deixasse pra ela as providências mais drásticas. Afinal, minha mãe era exímia professora lá no interior e nunca, dizia, precisou violentar aluno. Ela não me mimava. Exigia aplicação nos estudos e nada de bagunça na sala de aula. Tinha castigo e tudo. Como geralmente eu era tranqüilo e aplicado, não tinha maiores problemas. Acho que saiu daí a indignação do beliscão. Parece que a tal professora entendeu o recado, porque nunca mais buliu comigo. Com o tempo fui percebendo que as tais professoras eram meio nervosas. Outro dia, certa “mestra” catou minha orelha esquerda e usou como suporte para chacoalhar minha cabeça de um lado pro outro. Aquilo doeu! A vermelhidão que ficou era escandalosa. Tive vergonha e mais uma vez tiveram que ouvir sermão da minha mãe, agora na presença da diretora, que disse que isso não ia mais ocorrer, que a tal mestra estava estressada, e etc. e tal. Não deve ser fácil lidar com centenas de diabinhos desinteressados no fa, fe, fi, fo, fu da professora, mas péra aí! Os diabinhos são os mesmos desde que a humanidade existe. Talvez o que tenha faltado desde sempre é gente preparada e técnicas de ensino que superem a tensão geral de uma sala. Por aí percebe-se que o caminho não é tão suave assim. Dessa escola não me lembro bem dos nomes das professoras, talvez pelas suas atitudes, talvez pela minha pouca idade, talvez por que só estudei lá por um ano. O fato é que os pouquíssimos mestres que se mantêm em minha memória foram todos enérgicos, porém ótimos profissionais. Mais adiante vou falar deles, mas adianto que não havia bagunça nas suas aulas, provavelmente porque sabiam prender a atenção dos alunos. Voltando a meu tempo primário, acho que tive certa angústia em ir á escola, mas fui aprendendo aos poucos a conviver com pessoinhas de vários estilos e perfis e a entender, desde aquela época, o quão importante é a diversidade no aprendizado. Era um pouco tímido, é verdade, mas integrado no meu mundo. Fico imaginando a vida sem letras de um Kaspar Houser que cresceu criança ou de uma Hanna Schmitz que chorava ao ouvir as leituras do seu pequeno amado. O mundo acontecendo e eles ficando. Isso sim é isolamento. “Matéria dada, matéria estudada”, era a frase predileta de minha mãe. Nada de rua antes da lição. E com capricho! Dava-me orgulho fazer certo e bem feito. E depois da lição ia correndo e feliz para o paraíso idílico: a rua. Pasme, ela ainda não era um lugar perigoso. Era liberdade só. Era proibido proibir. Só não podíamos confiar em ninguém com mais de trinta anos e não aceitar balas de ninguém. Éramos alheios aos vietgongs que resistiam aos ianques e brincávamos de bate-lata enquanto Che-Guevara era assassinado. Um, dois, três, plac, plac, plac, Ernesto foi pego atrás do muro da casa do João.

 

Capítulo XVI – Desvendando a Paulicéia

 

Se for um leitor relativamente assíduo, sabe que um livro, revista ou jornal, ou ainda um folhetim, ou mesmo um folder fica feliz por sair da inanição. Ah, desvairada Paulicéia, saudosa paródia andradiana! Mário nem sequer imaginava que nos meus tempos de adulto, veja o insulto! - o trema cairia e ficaria estatelado ao lado do u, tremendo. Veja que, apesar de serem dois pingos, falamos trema no singular. Passageiros pacatos, esquecidos, perdidos em devaneio no ponto escultural moderno em forma de ferradura. Esta inventada, se fosse imantada, manteria os pingos pela força da atração. Mas não, o u não é mais aquele, não atrai mais ninguém, nem um pingüim! Meu desatualizado corretor de textos colocou trema em pingüim, sem me perguntar. Falava da Paulicéia de Mário, que virará a geléia de Gil, mais longe das Gerais. O cheiro era outro, menos morno, mais agridoce, mais ardido, menos comestível. Sim, porque no Jardim quase dava pra comer o cheiro. Já no Jaçanã não tinha essa vontade. Eles só passavam e pronto. Passaram a ser mais passageiros, qual o trema. Chega de lengalenga e nhenhenhém. Hora de ir pra escola. O caminho era curto. O livro era o Caminho Suave. Qual contemporâneo não se lembra? Hoje, sem exagero, está perto da sua centésima trigésima edição. Literalmente! Alguém aí puxe pela memória a lição do x que, acho, era assim: puxa você, puxo eu, com um filhote de cachorro puxando a saia de uma menina de trança, brincando de cabo de força. Pelo menos tenho isso na lembrança. Pois não é que - viva a evolução! - na 127ª edição de 2008, na lição da chiante letra, encontramos a palavra xadrez, com o dentro do desenho de um tabuleiro e o seguinte texto na página 62:

 

Bebê mexeu na caixa do xadrez.

Puxou...puxou...

A caixa caiu.

 

Eis o x da questão. Bebê xereta, esse. Lá vai um pedaço de nariz de cavalo de madeira taco a fora. Um naco de coroa de rainha, uma franja de torre. E as peças não são mais as mesmas. Lembro-me quando íamos ao asilo que o Tio Padre dirigia lá em São João da Boa Vista. Velhos curvos e babentos. Perfeitas bruxas com narizes pontudos e maxilares tortos a sorrirem com olhos brilhosos em nossa direção. Cheiros vários. Jardins imensos, árvores de tamarindo azedo, azedo! E entre uma e outra bala com formiga, o tio nos ensinava a arte do Mequinho. Ele ficava nervoso quando nos expúnhamos inocentemente ao seu ataque. Dizia alto: “tú, tu quieres morir? Como tu rainha!” Meio assim, misturando castelhano com português, apesar de ser catalão. Mas era bom, diferente, e acabamos aprendendo a jogar. Não tão bem assim, mas dá pra brincar. Afinal, no final do jogo rei e peão voltam à mesma caixa. O tio tinha uma coleção de frases de traseira de caminhão que guardava num grande livro, feito coleção de selo. Na cidade era conhecido como o padre-carona, alcunha que lhe valeu um corcel vermelho de plástico com os dizeres: “Padre Vicente Fontanet – o padre carona”, com uma fita dos rotuladores de então também vermelha e letras brancas colada no carrinho (criança lembra de cada detalhe!). Ai de quem não parasse pra levá-lo aonde queria! Comia como um padre e ao fim de uma boa refeição sempre dizia “comi como um padre!” Até hoje repito esta frase quando como muito. Morreu cônego com mais de 90 anos, acho que 94. Figura extraordinária. E tudo isso por causa do xereta do bebê do x da lição da suave cartilha. A escola era no fim da rua. As meninas bonitinhas, mas nenhuma Carmem Ramasco. Iniciava meus estudos básicos – riam - quando criaram o Mobral e a Funai, na mesma época do início da TV Bandeirantes e da Família Trapo, na Record. Com nova Constituição da dita linha dura e presos sem fim, o Brasil da bossa era um deboche só. Mas nem tudo estava perdido: a Mangueira foi campeã com o enredo: O mundo encantado de Monteiro Lobato e Edu Lobo e Capinam venceriam o Festival da Record com Ponteio. Quem me dera agora eu tivesse a viola pra cantar, pra cantar, pra cantar. Quem me dera agora!

 

Capítulo XV – Mudança Radical

Hora de crescer um bocadinho, só uma espichadinha. Chega de mato, de bucolismo, de goiaba, de bobó, de boiada, de pneu na cerca, de noite braba, de porão e pomar, vacas de bucha, açudes e lambaris. Chegou a hora de deixar o mundo idílico e ir ao centro do universo tupiniquim. Mudamos pra São Paulo. O Duque ficou tão perdido quanto qualquer cachorro em dia de mudança. O problema é que não era um qualquer, era o nosso. Correu atrás do caminhão estrada a fora por muito tempo e foi diminuindo até sumir na sua inútil e infinita correria. Lembro-me dos latidos surdos, abafados pelo motor gritante. Duzentos quilômetros nos separavam da Rua Parazinho, no Jaçanã, de terra preta com um pequeno córrego lateral a ser superado por pinguelas mínimas que davam acesso às casas. Era noite e, semelhante ao antigo ambiente, ouviam-se cricrilares múltiplos. Um misto de ansiedade e angústia tomou lugar no meu peito, enquanto olhava o Mickey estampado na lataria azul do caminhão. Sensação difícil de descrever. Se fitasse bem os seus olhos me lendo, talvez percebesse, de relance, uma pitada de apreensão. O que viria pela frente? Em primeiro lugar o duro trabalho de acomodação. Era uma casa geminada de fundos. A clássica dois quartos-sala-cozinha-banheiro. Com quintal. Um bom quintal, com três metros de muro no fundo com uns seis metros quadrados de terra e muito cimento em todas as áreas de acesso, inclusive no espaço entre os dois conjuntos de casas, onde ficava o poço artesiano. Desde que nascera, meus horizontes eram montanhas e matas. A zona norte paulistana amenizava um pouco o impacto. Afinal, estávamos próximos da Serra da Cantareira que freqüentemente seria meu destino ciclístico até os tempos da maioridade. Voltando aqui para a menoridade, lembro-me da minha mãe, no dia seguinte, passando creolina no assoalho da casa toda, fazendo as pulgas, pegas de surpresa, saltarem ardentes. Os outros meninos do bairro olhavam curiosos pra nós. Acho que tínhamos jeito de matutos, o que não deixava de ser verdade. Erres arrastados fundidos com "is" inexistentes em palavras do tipo porta faziam risos, o que, a princípio, deixavam-nos um pouco constrangidos e mais tarde, orgulhosos, por ser nossa marca de origem. Agora mesmo escrevendo essas reminiscências estou sentado em uma lanchonete na Vila Mariana, de onde se observa uma curiosa disposição de ofertas divinas: na esquina um colégio de freiras, em frente deste outra igreja que distribui passes aos crentes e, ao lado desta, um "pai" com nome chinês. Há fé de todos os tipos, há fregueses de todas as fés. É a segmentação de mercado. Mas estava na chegada em Jaçanã e se perder esse trem...Saudoso Adoniran, com seus 56 anos tinha lançado há apenas dois anos o seu trem das onze e recebeu um vizinho novinho em folha que veio lá do Jardim. Não tinha um morador sequer que não se lembrasse do trem ou, pelo menos dos trilhos, com certo sabor de perda, como um parente próximo que se vai. Uma novidade imediata foi os meninos jogando bafo. As figurinhas iriam me acompanhar por toda a vida, até a maturidade. Pausa para a infantofilosofia. Quem não vê graça em pequenas coisas dificilmente alcançará a mente de uma criança. Basta analisar a diferença de sensação entre você e um menino ao espremer uma formiga com o dedo. O caos infantil é o exercício para o equilíbrio adulto. É? Ou deveria ser? Deixa pra lá. Sinto-me um maduro infantil narrando peripécias de crianças. O equilíbrio não se alcança, apenas se persegue. Quem crescerá mais perto dele? Como diria um certo Shestertom, "a aventura pode ser louca, mas o aventureiro deve ser lúcido". Amanhã vou ligar pros meus pais e confirmar algumas coisas. Não quero mentir, nem ser traído pela memória. O mundo paulistano começa a ser desvendado e visto com olhares atentos e corações sobressaltados.


 

Capítulo XIV – As Curvas da Estrada de Santos

 

Meu pai me salvou! Perguntou o que eu achava de ir a Santos com ele de caminhão. Ninguém vai imaginar o que eu senti. Alguma coisa pulou dentro do meu tórax. O pai disse que ia carregar café até o porto. Faríamos a pequena parte terrestre da longa viagem até o destino final, levando um bocadinho desses frutos que até hoje singram o Atlântico. Do Islã para o Brasil, via europeus, do Brasil para o mundo. Lembra do nosso Barão de Motta Paes? Passamos de produtores a transportadores! 30 anos antes, milhões de sacas do “vinho da Arábia” foram queimadas. Mesmo assim a produção voltou a crescer. Torraram-se e ferveram-se muitos outros silhões de sacas que foram despejadas em bilhões de bules de prata de reis, de porcelana imperial, de estanho de nobres, de vasilhas de pobres que vêm enchendo xilhões de xícaras da tal bebida cheirosa. - Cóf, cóf, fazia eu com o pó da lona que cobria a carga. O cordame subia e descia em zig-zag atado nos ganchos alternados de cada lado da carroceria. Não era fácil subir no estribo da cabine. Era meu pai que me subia até lá. No bancão de mola, minhas pernas de cabrito ficavam balançando e os dois braços ficavam firmes em diagonal para evitar um tombamento. Às vezes ficava de pé com as mãos e o queixo encostado no gelado painel de lata, atento às paisagens e solavancos. Ansioso pela serra que nunca chegava, perguntava por ela a cada cinco minutos. Da passagem por São Paulo tenho vagas lembranças, um vagalhão de paisagens desconexinzentas. Verdes anunciaram nova proximidade de estrada. E o mais importante, a serra. A cada “já tá chegando” a aflição crescia. Começou a serra, disse meu pai, o que deu um arrepio na minha espinha. Logo vamos ver o mar. O mar que eu não sabia, e que neste dia de minhas reminiscências, perdeu seu maior contemplador. Caí-me a perscrutar a menor chance de vê-lo pela primeira vez. Curvas incessantes, mato, montanha e céu. Mas nada dele. Luminescências emanadas de serrações sinuosas numa mistura de boiçucanga e boitatá em plena tarde. Cheiro de lona e chiado de freio. E aí ele veio. Num clarão, um azul. Um enorme céu lá embaixo no chão. Meus olhos, úmidos e vidrados, quedaram no distante deus de Dori. Algumas horas depois, já perto, tive medo. Nuvens e mar cinza, vagas brancas e violentas. O vento molhado regava mais ainda minha alma. Naquele dia não entrei nele, só o vi da areia que ele lambia. Mas ainda me divertiria naquele e em muitos outros mares nunca d´antes desfrutados. Agora é voltar pra fila e pegar a carga de volta, com o peito carregado de emoção do mundo. Mesmo sem saber, devia estar me sentindo como Alexei Leonov que por aqueles mesmos dias foi o primeiro a sentir a sensação de flutuar no espaço aberto. Bem que minha mãe dizia: acorda, você vive no mundo da lua....

Capítulo XIII – Televisão

 

Bombástica foi a notícia da compra da nossa primeira televisão. Telefunken. Imeeeensa! Foram precisos dois caras fortes para trazê-la até a sala. Era coisa de outro mundo. Tamanho Maracanã, gabinete jacarandá, com seletor de canal com diâmetro de uma rolimã. Ninguém sonharia naquela época com LCD. Mas aquela era a pioneira, coisa moderna. A curiosidade da freguesia aumentava. Foi a notícia da cidade. Uma multidão foi se achegando aos poucos. Os mais ousados punham o pescoço na janela ou ficavam perto da porta, meio tortos, tipo um pé lá, outro cá. Olhos arregalados, lábios apertados. Esse comportamento era, pra mim, mais interessante do que a própria televisão em si. Sabia que ela seria a causa da falta de sossego que se seguiu por muito tempo. Era a Jovem Guarda da Record e Roberto. A Neuza que trabalhava em casa dava gritos estridentes quando via o rapaz da “garota papo firme”. She loves him. Era iê iê iê, um tipo de rock brasílico. Minha mãe, sempre solícita, convidava todo mundo, todo o nosso pequeno mundo pra apreciar os programas que nem bem me lembro. Pensando bem agora, acho que esse carnaval de repente foi a causa de eu não me tornar um beatlemaníaco, como aconteceu com muitos contemporâneos meus. Gente vinha com roupinha de missa cheirando à sabão de cõco, cabelos úmidos. De noite minha mãe tinha que cantar o Calhambeque Bibi, senão o Zé não dormia. Por aqueles tempos um Boeing 707 bateu no Monte Branco entre França e Itália deixando 117 mortos, mas as notícias não eram ao vivo. Os Beatles deram seu último concerto em São Francisco, um mês depois da instauração da ditadura militar na Argentina. Creiam, foi nesse tempo que criaram To Sir With Love. Eu voava com meu aviãozinho vermelho de plástico. Tanta gente na sala vendo a Wanderléa! Eu ainda preferia as curvas da Estrada de Santos a ver TV. 

Capítulo XII – O mundo ainda não fede, só cheira

 

Não foi o medo da noite. A demora é resultado da falta de hora. Fazer hora é coisa de desocupado. Cada coisa que a gente inventa! A ansiedade na infância é maior do que na anciã idade. Graças aos bons anjos, no dia seguinte de manhã, depois daquela noite braba, meu pai pegou a gente de volta pra casa. Deixamos o quarto, o pomar, os enigmáticos e negros porões, o sótão, a máquina de arroz e a sineta do portão de ferro. Que pena! Ah, o mistério! Essa coisa tão importante aos curumins e desdenhada pelos caciques brancos. A cabine do caminhão era sempre uma festa a parte. O Chevrolet Brasil, com seus pára-lamas verdes e o resto da lataria branca, dava pulos compassados com o barulho do motor e as mudanças de marcha. Sua altura descomunal em relação à rua dava certo orgulho aos pequenos viajantes. Lembro do cheiro de café-lona-cordame da carroceria. Tinha saudades do Duque, das brincadeiras, do aroma matutino do nosso mato, da minha cama batuta. Mas também já sentia saudades dos cheiros da casa da vó que me lembro até hoje. Se fosse capaz, decifrá-los-ia aqui. Quem sabe alguma vez eu possa. Lembro de uma fragrância mofidoce. Chego a respirar mais fundo quando me lembro dele. Mas essa palavra não significa nada pra você, nem pra ninguém além de mim. Nem tente decifrá-la. Poupo-o de procurá-la no dicionário. Ela não existe a não ser na minha memória única, assim como todos têm as suas únicas memórias. Saída de Pinhal, estrada, olarias, chaminés, cemitério, chegada a Sto. A. do Jardim. Diminuí o santo, mas deixei o que importa. Aliás, entre nós, dizíamos só Jardim. Da rua principal, antes da esquina do antigo cinema, viramos à direita e estávamos no topo da descida de onde avistávamos a nossa casa. Nem mesmo começamos a descer e o Duque já desembestou em nossa direção. Aos cães não interessa se vamos ou não até ele. Importa mais o prêmio de chegar até nós. Olhos estalados, língua de fora, latidos insistentes e, depois de uma derrapada espetacular na terra, desceu seguindo o caminhão. Olás e vivas e aqui estamos de volta. Enquanto o Brasil rompia relações diplomáticas com Cuba, abandonávamos o Chevrolet Brasil e reconquistávamos nossas posições de meninos do Jardim. E as fétidas bombas americanas caíam em Hanói. Nessa mesma época Thái, um vietnamitazinho horrorizado com a guerra ainda não sabia que anos depois fugiria em um navio pesqueiro, seria resgatado por um navio da Petrobrás e teria asilo no Brasil. Depois de muita luta aqui, fundaria a Goóc. Fui dormir à meia-noite num dia próximo à fundação do Jornal Zero Hora de Porto Alegre. Também fundava-se a Organização para Libertação da Palestina – OLP. Nesse bombástico mundo, mesmo sem saber, minha vida estava prestes a mudar radicalmente.

Capítulo XI – Noite Braba II

 

De tanto porão, pomar, esconde-esconde, rampa, pega-pega, brigas, risos e choros, fomos cedo pra cama. No dia seguinte voltaríamos pra nossa Santo Antônio do Jardim. Que os anjos digam amém. Nesta noite dormiríamos os três no mesmo quarto. Dormiríamos é por que uma série de acontecimentos nos impediu.  Primeiro acordei lá pelas duas da manhã com o João me cutucando: Beto, Beto, você ouviu esse barulho? Disse pra ele que eu estava dormindo, esfregando os olhos, e logo a seguir, ouvi sons que pareciam ser passos no interior da casa. Até aí, tudo bem, alguém deveria estar se dirigindo à cozinha para beber água ou ao banheiro, sei lá. Mas o fato intrigante era que não havia luzes acesas. Bom, pode ser que a pessoa, tipo o vô ou a vó, soubesse o caminho de cor e não precisasse de luz. Mas os passos eram compassados demais para alguém que se dirigisse a um objetivo definido. Às vezes o ruído interrompia-se para dar lugar a outros, como se a misteriosa pessoa estivesse vasculhando objetos. Barulho de papel se amassando, outras vezes sons metálicos. Criamos coragem e acendemos a luz do quarto pela “pêra” dependurada por um fio na cabeceira da grande cama. Por que uma coisa eu digo: se precisasse levantar pra acender a luz, acho que ninguém iria. O Zé fazia caras e bocas, às vezes com medo, às vezes meio divertido. Mas nós que já éramos mais velhos, ou menos novos, estávamos arrepiados da cabeça aos pés. Por falar em pés, os passos aumentavam de intensidade e o som surdo de botina no assoalho chegava até nossos ouvidos com mais intensidade. Lembrei daquela noite da raposa, mas dessa vez não era bicho. Era gente sim. Por incrível que possa parecer, me consolei pelo fato de, desta vez, estar com meus manos do lado, a esta altura, uns agarrados nos outros. A cada passo, um aperto a mais e mais cabelos arrepiados e sussurros muito contidos pra não alertar o dono dos movimentos do outro lado do quarto. Como no episódio da raposa, os estalidos daquele caminhar aumentavam de intensidade e pareciam crescer justamente em nossa direção.  O João disse baixinho: está perto do relógio da sala. Nesse instante o badalo ecoou bééémmmm. 02h30 em ponto. Só quando o último zunido esticado do relógio sumiu definitivamente, os passos reiniciaram sua jornada. Expectativa e apreensão tomaram conta de nossos cérebros perturbados. Tivemos, todos juntos, a exata impressão do momento em que aqueles pés pararam bem na entrada do escritório ao lado. Os pelos do corpo se eriçaram. Mais uns quatro ou cinco passos e seja-lá-quem-fosse estava bem diante da porta do quarto. Cochichei que deveríamos fechá-la com chave. Mas não houve meio de alguém levantar. Quietude total por uns cinco minutos. Respirações difíceis. O João, tomado de subida coragem e pavor disse alto: se tem alguém aí, fale quem é e o que quer. De repente, o silêncio matador se rompeu e a maçaneta se mexeu. Girou Va ga ro sa men te. A porta, rangendo as dobradiças, foi se abrindo muito lentamente. Atrás da porta, a escuridão. Perplexos, ficamos grudados uns nos outros por instantes. Novamente, no limite do insuportável, o João soltou a voz: Quem está aí, diga o que quer, nós estamos com medo. E todos desandaram a chorar. Súbito, a porta se fechou tal qual fora aberta, com o movimento completo da maçaneta. O terror imobilizou a todos. Muito tempo se passou sem mais nada. O amanhecer já não se fazia distante. Quando alguém, por puro cansaço ia fechando os olhos, outro cutucava para ficar atento. Assim ficamos até os primeiros claros do dia, quando escutamos passos reconhecidos. Era da vó e da Tia Leonor que madrugavam todos os dias. De pé, corremos ao encontro delas e narramos quase juntos a desvairada história. Calma, calma, seus negrinhos, um de cada vez. O João contou tudo, ainda muito agitado e eu confirmava com a cabeça. O Zé ainda não sabia bem o que tinha se passado. A vó, calma como sempre, disse que tínhamos sonhado. Que tínhamos comido muito mingau e tal e coisa. O Zé, não sei, mas até hoje o João e eu lembramos do caso como se fosse hoje e ainda sentimos lampejos de arrepio. O que se passou, não sabemos, mas não foi sonho não senhor!

 

Capítulo X – Rampa, porão e mingau

 

Depois da overdose frutífera tivemos que nos lavar meio assim, banho de gato, pra tirar o excesso de delícias sujas nos rostos, mãos e braços. Feito isso, fomos até o lado oposto da avenida, que de avenida só tinha o nome. O movimento era pouco. Lá havia uma rampa de cimento rústico que seguia a geometria de outra rua que bifurcava em subida. Gostávamos de pular da parte mais alta da rampa até a calçada da avenida, o que proporcionava um ou outro joelho invariavelmente lesionado. A altura, naquela memória infantil, era de uns três metros. Aposto que, se ela ainda existir, não deve passar de dois. Haja mercúrio cromo. A transição entre a vida e a morte é uma das muitas atribuições do deus romano Mercúrio. Mitologia à parte, o fato é que rolávamos na rampa e ralávamos peles de dedos, pernas e costas sem dó, feito queijo no ralador. E a dor só aparecia bem depois, à noite, para sumir de vez no outro dia. Certa hora batia um sol que costumava me dar uma preguiça gostosa e quando o calor incidia insistentemente no cimento, chegava a queimar as partes detrás das coxas. Hora de ir ao porão da casa da vó. Aquele lugar, apesar de bem organizado e limpo era, como qualquer congênere, tenebroso. Mistura de masmorra e Café Bizarre sem néon. Meio soul, blues inteiro. A meia-luz que existia, só existia por causa dos fachos que vinham de fora e passavam pelas fissuras das portas. Nunca alcançávamos as borboletas dos soquetes que acendiam as lâmpadas do teto, apesar deste ser relativamente baixo. A cada divisão ou pequenos cômodos que penetrávamos, mais escassa ficava a claridade. E quanto mais a escuridão aumentava e mais titubeantes ficavam as sombras, mais elas apareciam na imaginação. Naquele ambiente era impossível delinear os objetos e o negrume se intensificava na razão direta da melancolia. Lembro disso com muita clareza. Sempre tinha um engraçadinho, inclusive eu, que fazia um barulho simulado para amedrontar os outros. Buuuuuu. Ou alguém gritava - Um bicho!  E era motivo pra correrias doidas naquele breu. Nessa hora batíamos em objetos ignorados, no chão ou dependurados, mas que estimulavam ainda mais a imaginação, já à flor da pele. Nessas horas quebravam-se coisas, desarrumavam-se outras, o que sempre era motivo de repreensões ou castigos. Um dia achamos um baú velho que incitou nossas fantasias por muitos dias. Só se falava nele e quando, tomados de coragem, perguntamos o que continha nele, a vó o abriu silenciosamente. Quando já ia avistando objetos dourado-metálico-brilhantes, apareceram só algumas roupas velhas que cheiravam a porão. Talvez a húngara Christa Paffgen as usasse. Ninguém perguntou o motivo de elas estarem ali, mas isso passou a ser o nosso novo mistério. O bom daquele porão é que ele tinha partes sempre obscuras que permaneceriam assim até hoje, se ele ainda existisse. À tardinha subimos para os mimos de pais e avós. Vó Nair preparava um mingau de aveia, que o vô João chamava de mingau da véia e dizia que era preparado com aveia quarqué. Até hoje, o mingau que eu preparo é o que mais se parece com o daqueles tempos, descontando-se a qualidade do leite e da aveia. Compensa-se a raleza dos ingredientes com mais flocos. O açúcar ainda é o mesmo, para qualquer tipo de formiga.

 

Capítulo IX – Manga, leite e laranja

 

E com a luz do dia vem a vontade de farrear! E a vó nos pediu para ir lá na venda do Agostinho pegar uma bengala de pão e uma vasilha de leite. Naquele tempo, quem tinha nome eram os donos da venda. A venda mesmo, não tinha. No café da manhã, todos comentaram o ocorrido na noite. Riram mais um pouco da minha cara, mas tenho certeza até hoje, de que mesmo gente grande suaria um bom bocado. A vó disse que só por isso faria um doce de leite. E era sui generis o que ela fazia! Insánus lácteo. Ficava com aquela casquinha mais dura por fora e uma massa bem molinha por dentro. Ela cortava toda a forma em muitos pedaços em forma de losangos. Meus olhos brilhavam só de lembrar deles. A manteiga que passávamos no pão, fazia-se em casa mesmo. Lembro de minha mãe batendo nata por horas numa vasilha de vidro, até ela se transformar na mais pura manteiga. Nato nóbilis. Haja muque! Café tomado e, finalmente, estamos dispensados. Antes de sair, minha vó, com o indicador em riste, dizia: - Ói, escuta aqui seus levados, se vocês forem no pomar, podem aproveitar bem a época de manga e de laranja. Mas tomem cuidado pra não caírem das árvores, nem se cortarem, que eu não vou sair acudindo ocês, hein, bão! E lá íamos apostando corrida escada abaixo. As mangas estavam despencando de maduras, portanto, nem precisávamos subir nas árvores. Subíamos por que éramos crianças. Pele de moça, comum, rosa, espada, coquinho. Esses eram alguns tipos de manga que tinha no pomar e que ainda me lembro. Mas tinha mais de 50! Acha exagero? Também acho, mas no Brasil, temos mais de 500 tipos da mais verde e amarela das frutas. Lembro-me bem da manga coquinho. Não me lembro de tê-la visto depois de eu crescer. Ela era pequena, como revela o nome no diminutivo. Seu sabor e “buquê” eram únicos. Sempre doce, tinha fiapos suficientes pra preencher os espaços entre os dentes. Não é difícil imaginar três pirralhos se lambuzando de manga. Manga com leite, jamais, que dá dor de barriga. Folclores do interior. Acho que o que dá dor de barriga é chupar um montão de manga e depois arrematar um copo de leite. Se isso não gerar peristaltismo, nada mais vai gerar. Era uma amarelidão só! A pele de moça não tinha fiapo e era perfumada. Nome todo mimético. Mangas chupadas, verificamos as laranjas disponíveis na época: seleta, lima, Bahia, ou pêra? Péra aí, vou na lima que é mais doce. O doce de cidra parecia uma gelatina grossa e natural, açucarada artificialmente e com cravos. Estes também condimentavam o doce de batata-doce. Tem doce mais doce que o doce de batata-doce? Chego a sentir sede! Enquanto corríamos pelo pomar, um ex-membro da Ku Klux Klan, o então policial James Ford Seale, assassinou dois negros no Mississippi. Os dois jovens negros de 19 anos foram espancados e amarrados em objetos pesados e jogados no rio de mesmo nome. Só agora, em junho de 2007, aos 71 anos, Seale foi condenado. Eu estava condenado a me fartar de nectarina e minha vó mandou um casal de negros pobres entrarem e colherem as frutas que quisessem. Ajudamos no que pudemos e eles saíram felicíssimos. Ela sempre dizia que só ajudava as pessoas boas, que de ruindade já bastava a dela. E eu ficava matutando: como saber quem é bom e quem é ruim?
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